Home

“A fotografia é a “traição” do presente, porque é uma realidade passada, é uma realidade fabricada, descritiva, documental, é uma realidade programada magicamente pelo olhar do sujeito que fotografa e pela sua máquina. Deste modo, a linguagem fotográfica aliada à técnica transmite-nos, para além das funções descritiva e comunicativa, funções de nostalgia, de afetos e de emoções.”

(Pereira, Maria de Fátima, 2001)

BIOGRAFIA

José Augusto Cunha Moraes, nasceu em Coimbra em 1855 e faleceu no Porto em 1933. Foi com a família para Luanda, Angola em 1863, onde o pai tinha um estúdio profissional de fotografia, contudo, depois da morte dos pais, regressou à metrópole com um tutor para continuar os estudos. Volta a Luanda para tomar conta do estúdio fotográfico da família, coincidindo essa época com o período de ouro das expedições africanas e sendo Luanda um porto de partida e chegada dos exploradores de todas as nacionalidades. A maior parte da sua produção em África desenvolve-se entre 1877-1894, publicando fotografias na revista “O Occidente” e na “Arte Photographica”. Em 1882 publica um Álbum com fotografias da África Ocidental e entre 1885-1888, publica 4 volumes “Africa Occidental – Album Photográphico e Descriptivo” sob a responsabilidade de David Corazzi. Colabora ainda na Casa Biel desde 1900, como sócio de uma das suas secções de publicações.

JOSÉ AUGUSTO DA CUNHA MORAES E A ÁFRICA PORTUGUESA

José Augusto da Cunha Moraes foi sem dúvida um dos maiores fotógrafos portugueses do século XIX. Tendo vivido no período em que se iniciaram as grandes viagens de exploração do continente africano, Cunha Moraes, Viajante e Fotografo, retratou de forma exemplar a África Ocidental e as suas imagens consideradas verdadeiras obras de arte.

O Fotógrafo acompanha e vive todas as preocupações em relação à “África Portuguesa”. Apesar disso, verificamos através do trabalho fotográfico realizado que se integrou paralelamente na cultura africana. Se por um lado José Augusto da Cunha Moraes teve uma educação que se baseou nos valores ocidentais e que são, os que vai seguir ao longo da sua vida, por outro desde criança que contacta diariamente com a cultura africana, o que o levou a compreender uma linguagem que nada tinha a ver com a sua língua materna. José Augusto da Cunha Moraes não adquire a cultura africana, apenas a compreende. Aliás, o facto da sua vida decorrer desde a infância em Angola não lhe permite assimilar uma cultura com uma linguagem totalmente diferente da sua, onde desde logo o pensamento é estruturado de uma forma também diferente, porque  a língua não é idêntica, o que, consequentemente, também leva a uma diferente perceção do mundo, que porém não impede que J.A. da Cunha Moraes compreenda aquela cultura tão dispare da sua. José Augusto da Cunha Moraes regista nas suas imagens não só uma leitura da “África Portuguesa”, como uma outra leitura onde observamos uma preocupação antropológica, sociológica e etnográfica.

A nível da edição fotográfica da época, J. A. Cunha Moraes utilizou a fototipia (“Fotótipo – prova mecânica impressa por uma matriz de gelatina  reticulada.”), a qual “revelava-se nas suas qualidades “neutras” de descrição objetiva – sem cair na dureza dos contrastes não perdia o recorte dos objetos” (SENA, 1989, p. 29). Este era o processo que reunia todas as qualidades para o levantamento de um país viragem, o qual foi seguido pelo autor de forma apaixonada, peculiar e rigorosa.

Do seu trabalho resultou aquele que muitos estudiosos e críticos consideram, até aos nossos dias, o mais importante livro português de fotografia africana, África Occidental, “Album Photographico e Descriptivo”, em quatro volumes editado por David Corrazi (1885, 1886, 1887, 1888). Este álbum inclui fotografias das cidades, dos povos, dos costumes e das paisagens – a sua fotografia era documental, etnográfica, antropológica e sociológica.

ÁFRICA OCCIDENTAL, ÁLBUM PHOTOGRAPHICO E DESCRIPTIVO

Já decorriam alguns anos da vida de J.A. de Cunha Moraes e de experiência fotográfica em África quando se começou a publicar, no verão de 1885, o Album Africa Occidental, em quatro volumes, editado por David Corazzi. A 1ª parte dos álbuns aparece apenas no ano de 1885, não só porque os clichés apresentados nesta obra foram realizados ao longo dos seus 14 anos de experiência fotográfica, especialmente entre os finais dos anos 70 e princípios dos anos 80, como também pela sua organização primorosa que terá levado bastante tempo a tomar forma e o conteúdo exemplares que chegou até nós. Assim, a obra mostra-nos a África Occidental, tal como o seu próprio nome indica. Os volumes são divididos geograficamente, contendo todos quarenta imagens, à excepção do primeiro que contém 38, sempre acompanhadas de textos explicativos (aos quais não tive acesso). Faz igualmente uma abordagem temática, uma vez que as fotografias abarcam desde instituições, cidades, typos, plantações, colónias, costumes, paisagens, missões, fazendas, profissões, casas de negócio e imagens de caravanas.

1ª Parte

A 1ª parte do “Álbum Africa Occidental”, com 38 fotografias, descreve a região que vai “do rio Quillo ao Ambriz”. Começa com uma dedicatória e oferta do autor “Aos exploradores Portuguezes”. Deste modo, J.A. da Cunha Moraes, faz uma homenagem aos seus companheiros que atravessaram, como ele, um continente envolvido de encantos naturais, humanos e científicos e que conheceram as dificuldades que envolvem as explorações em África com dimensões culturais, geográficas e climatéricas completamente diferentes do mundo ocidental, que afetavam não só os homens como também toda a maquinaria que usavam para realizar o seu trabalho.

Dimensão e suporte: 1 álbum (29,5×21,5x2cms); com 38 documentos fotográficos em papel (fototipia).

This slideshow requires JavaScript.

2ª Parte

A 2ª parte do “Album fotographico e descriptivo” do ano de 1886 contém 40 fotografias de paisagens e Typos e abarca as regiões de Loanda, Cazengo, Rios Dande e Quanza. Este álbum possui um texto introdutório designado IDÉAS GERAIS SOBRE ANGOLA onde é feita uma descrição histórica que aborda a descoberta dos portugueses e homenageia todos aqueles que deram nome a Luanda. Aliás, as primeiras fotografias deste álbum que se referem a Luanda, começam por vistas da cidade, passando pelo Hospital Maria Pia, monumentos de Luanda, etc. J.A. da Cunha Moraes tem a perfeita consciência de que as suas fotografias vão ser contempladas por outros olhares que não o seu, dando-lhes o realismo necessário de uma terra tão longínqua dos olhares ocidentais, não deixando no entanto, fugir ou de deixar escapar o seu carácter, fotografando livremente, sem qualquer imposição do que os outros querem olhar.

Dimensão e suporte: 1 álbum (27×20,4×1,8cms); com 40 documentos fotográficos em papel (fototipia).

This slideshow requires JavaScript.

3ª Parte

A 3ª parte inclui as regiões de Novo Redondo, Benguella e Rio Quicombo, contém igualmente quarenta fotografias e um texto introdutório designado IDÉIAS GERAIS SOBRE BENGUELLA e, tal como o de Algola, é um breve resumo à ocupação de Benguela e à história da cidade. O álbum é iniciado por três fotografias da cidade de Benguela dando uma ideia geral da mesma. Para além destas fotografias, o álbum acaba com uma de “Um Acampamento” que se refere às viagens pelo interior e como os carregadores em viagem fazem o seu acampamento, como cozinham e como se alimentam.

Dimensão e suporte: 1 álbum (27,2x20x1,8cms); com 40 documentos fotográficos em papel (fototipia).

This slideshow requires JavaScript.

4ª Parte

A 4ª parte, publicada em 1888, abrange Mossamedes, Huilla e Humpata que, tal como nos volumes anteriores, tem um texto introdutório, desta vez dedicado a Mossamedes, seguindo a mesma narrativa histórica da vila. Descreve ainda a importância dos rios mas que apenas levam água no tempo das chuvas, dando igualmente relevo ao clima desta região e às tribos principais. Este álbum inicia-se com uma série de paisagens e instituições de Mossamedes, seguindo com fotografias referentes aos rios, a plantações, a colónias e a typos. A sociedade cientifica ocidental enriqueceu com o levantamento fotográfico de Cunha Moraes fez ao nível dos diferentes typos de tribos, sendo de salientar que para além do reconhecimento do seu trabalho fotográfico amplamente premiado, deve-se destacar igualmente o trabalho de investigação que teve de desenvolver para a elaboração dos textos que acompanham as imagens (a que não tive acesso), dando-nos uma ilustração completa de um mundo desconhecido, respondendo ao mundo ocidental cientifico, ávido do conhecimento e levantamento de novas e diferentes culturas.

Dimensão e suporte: 1 álbum (29,5×21,5x2cms); com 40 documentos fotográficos em papel (fototipia).

This slideshow requires JavaScript.

CONCLUSÃO

J.A. da Cunha Moraes observou, viu, captou, documentou e registou todos os seus referentes. Deixou-nos um registo documental. Especialmente quando observamos os álbuns verificamos a informação que Cunha Moraes deu à sua época, e como contribui para deixar na memória dos homens um verdadeiro documento histórico, político, económico e sociocultural. Deu-nos o privilégio de olharmos para um passado, e construirmos a partir dele, a ideia de um mundo com uma dimensão cultural que jamais observaremos. Deste modo, J.A. da Cunha Moraes foi reconhecido no seu tempo, pelo diverso trabalho fotográfico que realizou ao longo da sua carreira profissional; assim, o  seu mérito foi destacado em diversas exposições com prémios e participações que lhe foram atribuídos.

A técnica aliada à arte é uma constante na obra de J.A. de Cunha Moraes. O seu legado é um dos mais importantes da história da fotografia portuguesa. O modo como conjugou as diversas dimensões fez com que a sua obra fotográfica se destacasse como uma referência indiscutível na fotografia portuguesa.

BIBLIOGRAFIA:

– RODRIGUES, Adriano Duarte, Comunicação e Cultura na Era da Informação. Lisboa: Editorial Presença, 1994.

– PAVÃO, Luís, Conservação de Colecções de Fotografia. Lisboa: Dinalivro, 1997.

– SENA, António, História da Imagem Fotográfica em Portugal – 1839-1997. Porto: Porto Editora, 1998.

– NICOLAS, Monti, Africa Then – Photographs 1840-1918. Londres: Thames and Hudson Lda., 1987, p.9.

– PEREIRA, Maria de Fátima, Casa Fotografia Moraes – a modernidade fotográfica na obra dos Cunha Moraes, Porto, 2001.

Andreia Borges | 3º Ano | Ano Letivo: 2013/2014

Ciências da Comunicação: Jornalismo, Assessoria e Multimédia | Universidade do Porto

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s