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Denis Salgado Fotografia: Diário de Lisboa, através do arquivo da Fundação Mário Soares

Denis Salgado
Reprodução através do arquivo da Fundação Mário Soares

Denis Salgado pertencia à redacção do Diário de Lisboa desde 1931, permanecendo no jornal até finais da década de 60. Colaborou também noutras publicações, como é o caso da Revista Panorama, publicação pertencente ao Secretariado de Propaganda Nacional do Estado Novo.

O TRIO QUE ACORDOU O AVIADOR MAIS FAMOSO DO MUNDO (PEREIRA:2013)

A primeira seleção de fotografias a analisar resulta da visita do aviador Charles Lindbergh a Portugal, visita essa que se encontra mais detalhada no artigo de Gonçalo Pereira: “O trio que acordou o aviador mais famoso do mundo”, disponível na revista Jornalismo&Jornalistas. De uma forma sucinta, Charles Lindbergh – aviador norte-americano  que conquistara o Atlântico Norte em 1927 – e a sua esposa aceitam a proposta da companhia Pan American Airways para viajar o continente Europeu. Passando pelas principais cidades europeias, o casal conduz na última etapa o seu hidroavião até Portugal. Ainda que o destino fosse Lisboa, as condições de voo obrigaram o casal Lindbergh a amarar no rio Minho, na zona de Ínsula de Crasto.

Charles Lindbergh era conhecido pelo pouco espaço que concedia a entrevistas. No entanto, e com a certeza de que a neblina permaneceria por mais uns dias na região de Valença, os jornalistas Norberto Lopes, Luís Lupi e o fotógrafo Denis Salgado seguiram viagem, na tentativa de conseguir aquilo que os jornalistas europeus não tinham conseguido.

As fotografias de Denis Salgado funcionam como um complemento ao texto descritivo, característico do jornalismo do século XX. Disponível no Arquivo da Fundação Mário Soares, pode ler-se na edição de 15 de Novembro de 1933:

“(…)A águia dorme ainda. A águia tem o sono pesado. Manchas encarnadas rasgam agora o céu coberto de nuvens. É o sol que se mostra a medo . A água tem ligeiras crispações, de peixes que saltam em volta do aparelho. São os salmões e as lampreias,cuja vida preococe aquele marinheiro perfilado defende, de arma ao ombro”.
Diário de Lisboa”, 15/11/1933

Embora este encontro se realize no dia 14 de Novembro, é na edição dos dias 15 e 16 que se encontra um conjunto de doze fotografias sobre o encontro com o casal Lindbergh. Devido à qualidade de impressão e posterior digitalização, apresenta-se uma pequena seleção ilustrativa dos dois dias em que o assunto foi noticiado:

Picture8

“Diário de Lisboa”, 15/11/1933
(reprodução a partir de arquivo da Fundação Mário Soares)

"Diário de Lisboa", 15/11/1933 (reprodução a partir de arquivo da Fundação Mário Soares)

“Diário de Lisboa”, 15/11/1933
(reprodução a partir de arquivo da Fundação Mário Soares)

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“Diário de Lisboa”, 16/11/1933
(reprodução a partir de arquivo da Fundação Mário Soares)

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“Diário de Lisboa”, 16/11/1933
(reprodução a partir de arquivo da Fundação Mário Soares)

Picture5

“Diário de Lisboa”, 16/11/1933
(reprodução a partir de arquivo da Fundação Mário Soares)

Picture6

“Diário de Lisboa”, 16/11/1933
(reprodução a partir de arquivo da Fundação Mário Soares)

"Diário de Lisboa", 16/11/1933 (reprodução a partir de arquivo da Fundação Mário Soares)

“Diário de Lisboa”, 16/11/1933
(reprodução a partir de arquivo da Fundação Mário Soares)

Como se pode verificar, a fotografia de Denis Salgado adquire a mesma importância que o texto jornalístico. Na maioria das fotografias seleccionadas, verifica-se que o Quem? e o Quê? assumem uma importância central. Desde o momento inicial em que o aviador diz “O primeiro tiro foi meu!”,  na altura em que fotografa os jornalistas ali presentes, até à partida do casal, confirma-se o rigor e a neutralidade que Denis Salgado adoptou para esta fotoreportagem. A opção pelos planos centrados procuram captar a rotina do casal, não invadindo o seu espaço pessoal. As imagens funcionam quase como uma prova, um comprovativo da passagem do Diário de Lisboa pelas margens do Rio Minho. Quase sempre acompanhadas de legendas, denota-se que o fotógrafo procurou capturar o conteúdo noticioso da visita da Águia do Far-West.

REVISTA PANORAMA

O Secretariado da Propaganda Nacional era um dos grandes pilares do regime do Estado Novo. Criado em 1933 e sob a direcção de António Ferro, o SPN procurava, através do controlo de todos os meios de informação – cinema, radiodifusão e teatro – publicitar a ideologia do regime ditatorial português. Destaca-se, no âmbito deste trabalho, a revista Panorama, publicação mensal que assumia uma dimensão propagandística da instituição editora.

Criada em 1940, é na edição de Julho de 1941 que se encontra o nome de Denis Salgado.

CASAS ECONÓMICAS – UMA JANELA ABERTA PARA A VIDA

Este primeiro artigo surge no contexto de uma visita guiada aos jornalistas por alguns responsáveis do SPN aos bairros sociais da região Sul. Com um total de sete fotografias, apenas uma é de autoria de Denis Salgado:

Não é cinema. É realidade Revista Panorama; Julho 1941

Não é cinema. É realidade
Revista Panorama -Julho 1941

Com a legenda “Não é cinema. É realidade”, verifica-se mais uma vez o complemento jornalístico que a fotografia de Denis Salgado assume em relação ao conteúdo escrito. Numa época em que o cinema começava a ganhar expressão no país, Denis Salgado aproveita, através deste plano próximo e centrado, captar o cenário idílico que o texto procurava transmitir. Leia-se nesse mesmo artigo:

“Não é fácil dizer qual desses bairros nos pareceu mais certou ou mais desagradável do que os outros – não só porque o bom gosto presidiu à construção de todos eles, mas ainda porque houve, da parte de quem os concebeu, a justa preocupação de os construir de harmonia com o carácter da paisagem local e a psicologia da população. (…) Em todos eles, o mesmo asseio irrepreensível, a mesma simplicidade de vida, a mesma atmosfera de felicidade doméstica.”
Revista Panorama; Julho 1941

Constata-se assim o rigor e a consonância que o fotógrafo procura manter com o texto. Todo o artigo tece variados elogios à iniciativa do regime, não fugindo a imagem presente à tendência do texto noticioso. Tendo uma família de pescadores como figuras centrais, Denis Salgado evidencia assim duas grandes características do Estado Novo: a família e a ruralidade. “Deus, Pátria e Família” eram os princípios do regime estabelecido por Salazar, e a presente fotografia procura corroborar o terceiro. Acompanhando este raciocínio, no canto inferior direito da imagem é possível observar a sombra de uma bandeira, notando-se assim a valorização da Pátria portuguesa, característica  do regime em vigor.  As roupas características da actividade dos moradores, nomeadamente as saias compridas e as camisas axadrezadas procuram evidenciar o carácter simplista e tradicional português que o Estado Novo procurava explorar.
Conjuga-se assim na imagem elementos significativos à transmissão da mensagem que se procurava transmitir no artigo em questão.

NAZARÉ: UM TEMA INESGOTÁVEL

Seguindo a linha de análise anterior, a segunda fotoreportagem de Denis Salgado na Revista Panorama enquadra-se no âmbito da actividade piscatória na zona de Nazaré. Com um total de seis fotografias, também nesta reportagem se encontra o carácter nacional e tradicionalista que o regime procurava defender acerrimamente.

“Investigar a ignota, a incógnita origem desta gente que é evidentemente duma raça que não se encontra senão noutros lugares do litoral (em ílhavo, na Póvoa, em Buarcos), raça que raramente se cruza com qualquer outra e a Nazaré conserva mais pura e concentrada, seria o primeiro trabalho de científico interêsse para quem desejasse produzir  obra séria desta singular peça de museu, de múltiplos aspectos.”
Revista Panorama; Julho 1941

É precisamente esta “raça pura” que o fotógrafo procura captar. Numa zona onde a actividade piscatória assume grande importância, Denis Salgado explora o lado humano e emocional desta actividade, como se pode ver na fotografia “Como os pescadores levam os filhos”.

Como os pescadores levam os filhos Revista Panorama; Julho 1941

Como os pescadores levam os filhos
Revista Panorama; Julho 1941

Ainda que a legenda restrinja a actividade profissional deste pai, denota-se que a mesma não tem qualquer sentido pejorativo, muito pelo contrário. Através deste plano próximo, este pai surge quase como um exemplo, um símbolo de paternidade. Enquadrando nos valores do regime do Estado-Novo anteriormente descritos, comprova-se que Denis Salgado neste caso procura ilustar todo o texto jornalístico que o acompanha. Assim como o homem assume uma posição dominadora, as mulheres também surgem nesta fotoreportagem, com os seus tradicionais lenços e as sete saias, características daquela zona. Retrata-se assim todo o ambiente humilde simples da zona de Nazaré, enaltecendo e tornando-a num exemplo a seguir.

As raparigas da Nazaré Revista Panorama - Julho 1941

As raparigas da Nazaré
Revista Panorama – Julho 1941

Tal como o título sugere, a Nazaré foi tema permanente durante algumas décadas do século XX. No artigo Os olhares fotográficos dos estrangeiros, o blog Grand Monde aborda alguns fotógrafos estrangeiros que passaram por Portugal. Para este trabalho, destaca-se o fogógrafo americano Bill Perlmutter, que esteve na Nazaré nos finais da década de 50 e cuja obra se encontra na exposição “heróis do mar”, posteriormente publicada em livro pelo CPF.

Escreve Perlmutter no prefácio do livro:

“As pessoas fascinavam-me; os rostos morenos e marcados pelo tempo pareciam estar em completa sintonia com o mar bravo à sua volta. As roupas pareciam fora do tempo, na moda em qualquer século menos no século XX. Aqui o relógio parou, ou pelo menos passou a andar mais devagar. Porque estes pescadores corajosos pareciam mais próximos do seu passado fenício do que do presente.”
(
PERLMUTTER:2002)

De facto, todo o trabalho de Perlmutter procura captar a dinâmica patente a esta actividade. Desde os homens que são obrigados desde novos a pescar, até às mulheres que nada mais podiam fazer senão dar continuidade ao trabalho feito no mar ou esperar pelo regresso incerto daqueles que partiam, o fotógrafo norte-americano procurou condensar o tempo que se contava pelas ondas e marés. Acompanhado de textos de Manuel António Pina,  as imagens de Perlmutter dão conta da estrutura que se repete, da popa à proa, de geração em geração.

Bill Perlmutter

Dias de tempestade, rotas, recifes,
o rosto é o mapa, o olhar o vento
Fotografia: Bill Perlmutter (1956)

e a infância apenas tempo, escuridão e tempo Boy on the Beach, Bill Perlmutter (1956)

E a infância apenas tempo, escuridão e tempo
Boy on the Beach, Bill Perlmutter (1956)

Escrita de sombras, os dias,de passos parados, espessuras vazias Bill Perlmutter (1956)

Escrita de sombras, os dias,de passos parados, espessuras vazias
Fotografia:Bill Perlmutter (1956)

Os homens são barcos em terra, tumultuosos barcos onde naufragam os mares todos,  principalmente os dos sentidos Fotografia: Bill Perlmutter (1956)

Os homens são barcos em terra,
tumultuosos barcos onde naufragam
os mares todos, principalmente os dos sentidos
Fotografia: Bill Perlmutter (1956)

A espera : água parada, Os braços abertos, a alma fechada Fotografia: Bill Perlmutter (1956)

A espera : água parada,
Os braços abertos, a alma fechada
Fotografia: Bill Perlmutter (1956)

BIBLIOGRAFIA | WEBGRAFIA

(1933), “Diário de Lisboa”, nº 3955, Ano 13, Quarta, 15 de Novembro de 1933, CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_28944 (2013-12-10)
(1933), “Diário de Lisboa”, nº 3956, Ano 13, Quinta, 15 de Novembro de 1933, CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_28944 (2013-12-10)
(1941), “Revista Panorama”,nº2, volume 1, Julho de 1941
Perlmutter, Bill (2002, Maio) “Heróis do Mar – textos de Manuel António Pina”, Centro Português de Fotografia
Ribeiro, Carla (2011) “O cinema do SPN/SNI – o ideal de Ferro, a realidade de chumbo”
Ribeiro, Carla (2011) “A cultura popular em Portugal – de Almeida Garrett a António Ferro”
Marques, Mário (2003); “Para além do instante”

Carla Moreira Santos | Ciências da Comunicação: Jornalismo,
Assessoria e Multimédia | Janeiro 2014

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