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O FOTÓGRAFO DE MUITOS REGIMES

Domingos do Espírito Santo Alvão nasceu na freguesia da Lapa, no Porto, em 1869, e faleceu na mesma cidade, em 1946. Atravessou três períodos políticos – a Monarquia, a República e o Estado Novo – e em todos soube afirmar e distinguir a sua arte. Iniciou a sua carreira como aprendiz na Casa Biel, tida como o mais importante estabelecimento do ramo no país, e, depois de um breve estágio em Madrid, torna-se operador-gerente do também conhecido estabelecimento do capitalista Leopoldo Cirne – o Foto Velo Clube –, na Rua de Santa Catarina, 120. Ainda nesse período, começa a publicitar nas vitrinas da Tabacaria Africana os seus retratos de artistas do Teatro Príncipe Real e da sociedade portuense.

Em 1903, funda, no estabelecimento do Foto Velo Clube, a sua própria casa fotográfica – a Fotografia Alvão. Em 1907, participa nos concursos de Leipzig e Turim, com fotografias sobre paisagens e costumes do Minho e Douro Litoral. Foi com este tipo de fotografias que ganhou projeção e uma série de prémios nacionais e internacionais. As fotografias de Domingos Alvão, publicadas em coleções de postais, em álbuns das mesmas temáticas, eram muitas vezes procuradas para representarem o país nas paredes das embaixadas no estrangeiro. Contactada para a realização de retratos ou encomendas comerciais de empresas e particulares, a Casa Alvão era uma garantia para se obter uma boa fotografia. Diversas revistas divulgaram a sua produção, entre as quais Illustração Portuguesa, Gazeta das Aldeias, Stella, Panorama, Mundo Gráfico.

O OLHAR DO FOTÓGRAFO ALVÃO

“A fotografia não diz (forçosamente) o que aconteceu. (…) Diante da fotografia, a consciência toma a via da certeza: a essência da fotografia é de ratificar o que ela representa. (…) A fotografia é indiferente a qualquer ligação: não inventa, é a própria autenticação; nunca mente; ou antes: ela pode mentir sobre o sentido da coisa, sendo por natureza tendenciosa, nunca sobre a sua existência. Impotente perante ideias gerais, a sua força é todavia superior a tudo o que pode ou pôde conceber o espírito humano para nos assegurar da realidade. Toda a fotografia é assim um certificado de presença.” (Barthes, 1992). De uma forma geral, a fotografia é um testemunho sobre o mundo, virtude bem expressa nas fotorreportagens Cheia do Douro e Exposição Colonial de 1934, de Domingos Alvão.

Cheia do Douro

Ora, a fotografia de reportagem não foi dos géneros muito prolíferos da Fotografia Alvão e os que datam dos primeiros anos de atividade da casa, foram publicados na Ilustração Portuguesa. A reprodução da imagem fotográfica na imprensa só se faz em 1910, ultrapassados os inconvenientes mais comuns, nomeadamente “o uso de uma rotativa dupla, que permitia a impressão simultânea do texto e imagem, o melhoramento do papel, da uniformização da tinta, o melhoramento de tintas e óleo”, e é nesta altura que se publica a fotorreportagem Cheia do Douro.

Cheia do Douro. Dezembro de 1909

Cheia do Douro. Dezembro de 1909

No inverno de 1909/1910, o aumento sazonal do caudal do rio Douro resultou em graves cheias. Domingos Alvão coloca-se em campo e regista as zonas ribeirinhas. Nas suas fotografias mostra as margens do Douro submergidas, os cais de Gaia e Miragaia inundados e várias embarcações destruídas. Destas fotografias, 14 foram publicadas: oito na Ilustração Portuguesa, nos números 202 e 203, de 3 e 10 de janeiro de 1910 respetivamente; as restantes seis foram publicadas no álbum A cidade do Porto na obra do fotógrafo Alvão, de 1993.

Cheia do Douro. Ribeira do Porto e Ponte D. Luiz I. Dezembro de 1909

Cheia do Douro. Ribeira do Porto e Ponte D. Luiz I. Dezembro de 1909

“Enquanto uma pintura se cria a partir do nada, através da perceção e imaginação, o processo fotográfico é uma seleção de acontecimentos e cenários reais” (Freeman, 2012). E como a fotografia tradicional procura uma composição final à partida, ter tempo para estudar e avaliar o enquadramento propicia o ato fotográfico. Como podemos ver nos exemplos selecionados, o enquadramento adotado por Domingos Alvão transmite a sensação de horizontalidade e, consequentemente, de estabilidade. Ainda que nem todos elementos (os edifícios, p.e.) estejam ajustados à parte inferior do enquadramento, não existe qualquer sensação de que o olhar e a cabeça do leitor estão mais baixos, pois se tal acontecesse, gerar-se-iam associações negativas face ao representado na fotografia. Assim, tendo em conta a temática da fotorreportagem – as cheias do Douro e as consequências que estas acarretam sazonalmente –, Alvão procura captar a realidade sem desconcertar o leitor.

Cheia do Douro. Alfândega. Dezembro de 1909

Cheia do Douro. Alfândega. Dezembro de 1909

A imobilidade dos objetos fotografados joga a favor de Alvão, na medida em que possibilita a tomada de decisões sobre a posição da linha do horizonte. A elevação da linha do horizonte nas fotografias analisadas realça os elementos terrestres. Talvez a razão para tal seja de abranger uma área significativa do solo e concentrar a atenção na ambiência que envolve os elementos da fotografia – edifícios, embarcações, ponte… Para tal contribui ainda o retoque feito com o verniz a fim de aclarar a imagem permitindo maior visibilidade a tais elementos. Para além disso, a dimensão dos objetos aqui conseguida torna a presente composição mais informativa, ou seja, mostra o contexto e os pormenores dos objetos fotografados e o seu alinhamento realça a geometria da mesma.

Cheia do Douro. Praça da Ribeira, Porto. Dezembro de 1909

Cheia do Douro. Praça da Ribeira, Porto. Dezembro de 1909

Considero a documentação o principal objetivo da presente fotorreportagem: isento de pretensões criativas ou artísticas, Domingos Alvão procura mostrar da forma mais neutra possível a efemeridade do acontecimento que presenciou, cujo registo servirá para testemunhar o acontecimento – a cheia do Douro no ano de 1910 – e ilustrar a História.

Exposição Colonial de 1934

A Exposição Colonial de 1934 enquadra-se no âmbito de uma fotografia propagandista. Esta fotorreportagem retrata um acontecimento – a I Exposição Colonial Portuguesa – e é esse o acontecimento, sobre o qual reside quase todo o interesse, que dita o desenrolar do processo fotográfico.

Exposição Colonial de 1934. Imagens da Vida Missionária - Uma mestra de trabalhos femininos

Exposição Colonial de 1934. Imagens da Vida Missionária – Uma mestra de trabalhos femininos

Assim que enunciada a intenção de “primeira lição de colonialismo dada ao povo português”, a Fotografia Alvão solicita à organização a exclusivo de todo o levantamento fotográfico da I Exposição Colonial Portuguesa, desde a sua abertura (16 de julho de 1934) até ao seu encerramento (30 de setembro de 1934), comprometendo-se a entregar uma coleção de fotografias executadas durante a mesma. A resposta foi positiva e Alvão tornou-se o fotógrafo oficial e exclusivo de toda a exposição. Deste levantamento fotográfico resultou o Álbum Fotográfico da 1ª Exposição Colonial Portuguesa, composto por 101 fotografias. Disposta tanto pelos jardins como pelo Palácio, propriamente dito, a Exposição Colonial contava com inúmeras atrações para os seus visitantes: nos jardins, estavam representadas várias cidades natais com indígenas oriundos das várias colónias portuguesas, existiam, ainda, stands comerciais, restaurantes, reproduções de monumentos célebres, um parque zoológico, “Luna Park” com inúmeras atrações que podiam ser vistas a bordo do “Comboio Colonial” ou do teleférico; já no interior do Palácio estavam representados os organismos oficiais, as empresas e as atividades coloniais e metropolitanas.

Exposição Colonial de 1934. Guiné - mulher balanta

Exposição Colonial de 1934. Guiné – mulher balanta

O álbum de Alvão foi considerado um resumo significativo do trabalho desenvolvido aquando da exposição e foi um dos trabalhos que lhe conferiu maior notoriedade. Devido ao forte cariz político e propagandista da Exposição Colonial, as fotografias de Alvão tornaram-se num elemento ativo na construção de uma mensagem política e correram não só por todos os jornais que iam noticiando os eventos mais marcantes, mas também nos guias e catálogos oficiais.

Exposição Colonial de 1934. Guiné - Aldeia de Balantas

Exposição Colonial de 1934. Guiné – Aldeia de Balantas

Domingos Alvão tinha uma forma particular de encarar o mundo: procurava transmitir sensações de descanso, calma, paz. Para isso, socorria-se no processo de criação fotográfica da luz e da pose. Como podemos ver nos exemplos selecionados, a luz é utilizada com extremo acuidade a fim de evidenciar um determinado aspeto do rosto e encobrir outro, mas também para construir imagens em que a tez escura dos corpos ganhe matizes de grande suavidade entre o preto e o branco. O contraste intenso daqui resultante confere à fotografia uma áurea mágica e obriga o leitor a concentrar a sua atenção no elemento desejado. Mas para que complementar o carácter vivo e narrativo da fotografia, a pose é fundamental. Em entrevista ao Mundo, em 1913, Domingos Alvão confessou: “Estes meus trabalhos são, por vida de regra, preparados. Caminho, encontro um trecho de paisagem, lobrigo um palminho de cara agradável e fixo o tripé. Depois, segundo o meu critério artístico, disponho a personagem, conjugando-a o mais harmoniosamente possível com o cenário, e disparo a máquina”. A conjugação da luz e da pose resultam em fotografias de figuras humanas classificadas pela crítica de autênticos retratos psicológicos. De um modo geral, trata-se de fotografias nítidas, com uma paleta rica em cinzentos, com inúmeras tonalidades e subtis variações de tom. Posto isto, podemos ver que Alvão detém o controlo da imagem fotográfica para obter exatamente aquilo que já havia visualizado na sua mente e acaba por promover uma ideia da vida nas colónias muito mais sorridente do que se calhar era na realidade. Por outras palavras, cada fotografia é um trabalho autónomo enquanto objeto de expressão artística, mas o seu sentido enriquece quando reunidas em grupos temáticos, como neste caso.

Exposição Colonial de 1934. Aldeia de Timor

Exposição Colonial de 1934. Aldeia de Timor

A meu ver, a presente fotorreportagem deve a maior parte do seu efeito de narrativa ao planeamento: o resultado do trabalho levado a cabo por Domingos Alvão era, em parte, previsível, na medida em que já com o conhecimento prévio do evento, bastava reunir as condições necessárias e explorar cada situação específica.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 O que determina e diferencia a composição das duas fotorreportagens anteriormente analisadas é o objetivo – a intenção. Se, no primeiro caso, existe a preocupação com a autenticidade do objeto representado, no segundo, este depende da perceção do artista e do contexto em que este se insere e é aqui que mais se evidencia a estética pictorialista das fotografias de Domingos Alvão – “não reproduzir coisa alguma, não imobilizar uma ação ou evento, antes retirar um facto da realidade observável e reconstituí-lo de uma forma única no campo da arte bidimensional”. O colonialismo ou a ruralidade são concebidos nas fotografias de Alvão como realidades diferentes e otimizadas. “Mas têm o ‘olhar Alvão’, que fez delas património”. 

BIBLIOGRAFIA

Dubois, P., 1992. O acto fotográfico. Lisboa: Vega.

Figueiredo, F. A. C. d., 2006. Nacionalismo e Pictorialismo na Fotografia Portuguesa na 1ª metade do século XX: o caso exemplar de Domingos Alvão. [Online]
Available at: http://documenta_pdf.jmir.dyndns.org/F.Figueiredo_Tese%20Final_PDF_abril2006.pdf
[Acedido em 12 Novembro 2013].

Freeman, M., 2012. O olhar do fotógrafo. Lisboa: Dinalivro.

Viktoriya Zoriy | Ciências da Ciências da Comunicação: Jornalismo, Assessoria e Multimédia | janeiro 2014

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