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Emílio Biel:

A construção de um caminho-de-ferro rumo aos costumes da fotografia em Portugal

A fotografia surgiu em 1839, no entanto, os primeiros estúdios fotográficos em Portugal aparecerem só por volta da década de cinquenta do século XIX e os mais destacados fotógrafos em Portugal, nesta época, eram estrangeiros. Entre estes encontrava-se Emílio Biel, um comerciante e industrial alemão, com interesses em vastas áreas do conhecimento, entre os quais, a fotografia.

Às suas mãos, na década de setenta do século XIX, surge a Casa Biel, que veio a ter um papel preponderante na história da fotografia portuguesa, fazendo chegar até aos nossos dias álbuns e outras publicações que retratam o Portugal do século XIX e inícios do século XX. Entre estes o álbum “Caminho-de-Ferro do Douro” e a coleção de bilhetes-postais ilustrados “Costumes Portugueses”, a desenvolver em seguida.

Emílio Biel

Nasceu Carl Emil Biel, na Baviera, em 1838. Apesar de não haver referência à sua educação e formação, pode-se inferir que teve uma formação sólida a avaliar pela pluralidade de interesses, das ciências às artes, que demonstrou ao longo da sua vida.

Emílio Biel, como era chamado em Portugal, veio para Portugal em 1857, com 19 anos. Em 1864, na cidade do Porto, fundou uma fábrica de botões, integrou várias associações de comerciantes, empreendeu a eletrificação de Vila Real, as estações de caminho-de-ferro de Lisboa e Porto, entre outros feitos assinaláveis.

Relativamente à atividade fotográfica, Biel iniciou-se na década de sessenta, fundando em 1873/4 a Casa Biel, que se tornou rapidamente um dos maiores estúdios do país e a mais importante editora de fototipias em Portugal até à primeira década do século XX.

Em 1915, com quase 77 anos, Biel faleceu no Porto, depois de uma vida surpreendentemente ativa e interessante.

“Caminho de Ferro do Douro”

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A Casa Biel teve uma significativa participação numa das mais importantes publicações do século XIX: “O Ocidente”, que apesar de só reproduzir gravuras, os gravadores utilizavam fotografias como matrizes. Entre os muitos trabalhos de Emílio Biel & C.ª publicados na revista, encontram-se as vistas das linhas de caminho-de-ferro e pontes que então se encontravam em construção, como é o caso de “Tunnel do Loureiro e da Murta”.

Estas vistas representam a visão oitocentista da ideia de progresso técnico, introduzido pelo Fontismo, expressa no comboio, nas obras como pontes, túneis, viadutos e estações. Mas representam também a paisagem natural do Vale do Douro, o leito do rio e as suas vertentes. Desta forma, estamos perante uma notável representação das relações entre a natureza e a técnica.

Para além da publicação n’“O Occidente”, estas fototipias foram editadas em álbuns, que terão surgido devido à necessidade de preparar a participação da Associação dos Engenheiros Portugueses na Exposição Universal de Chicago, de 1893. Os responsáveis da Associação de Engenheiros contactaram diversos fotógrafos, entre os quais Emílio Biel, que então preparou os álbuns. No entanto, estes não chegaram a tempo da tal exposição, sendo expostos na cidade de Nova Iorque.

Os álbuns dos “Caminhos de Ferro do Douro, Minho e Beira Alta” não estão datados, contudo, as gravuras publicadas n’“O Ocidente” são de 1882 a 1885, o que nos dá uma ideia do período de produção.

Relativamente ao “Álbum Caminho de Ferro do Douro”, este é composto por 34 fototipias, a preto e branco, com a dimensão de 47×61,5cm, à exceção de “Valle do Douro e Viaducto do Laranjal”, que consiste numa composição de duas fototipias.

Cada fototipia do álbum aparece acompanhada por uma legenda, que é direta e informativa, com o local e a identificação da obra que está representada, por exemplo, “Viaducto das Quebradas”. Por vezes, é também identificada “a vista”, como acontece em “Ponte do Douro – Vista da Margem Direita”.

Numa época em que a fotografia era tão dispendiosa, a seleção adquire uma maior preponderância, pois produziam-se poucas fototipias e ainda menos eram publicadas. A seleção de fototipias para este álbum, devido aos padrões que se encontram e à homogeneidade das fototipias, criam a ilusão de que estamos a acompanhar uma viagem de um só comboio pelo caminho-de-ferro do Douro. É como se este comboio nos conduzisse numa visita a esse caminho-de-ferro e às obras humanas e paisagens naturais aí existentes, de uma perspetiva quase “omnipresente”. A presença de pessoas é rara e, quando acontece, adquire um papel mais do que secundário: figurante.

Os padrões que nos induzem nesta harmonia passam pelo destaque dado a uma obra em particular, envolta na paisagem natural e no céu, bem como pelo comboio com o fumo que se dissipa nas nuvens (que aparece quase sempre, com poucas exceções). Conseguir estes padrões implica paciência para esperar pelo momento certo e sensibilidade para o reconhecer. Este facto adquire uma dimensão ainda maior se tivermos em conta que se trata de uma altura em que o equipamento não era fácil de manusear ou transportar, como o é nos nossos dias.

O álbum “Caminho de Ferro do Douro” representa, em termos estéticos, uma rutura na fotografia portuguesa do século XIX. Em grande parte das fototipias do álbum encontra-se uma abordagem fotográfica inovadora: por um lado, exibem uma profunda riqueza tonal, por outro lado, apresentam um distinto enquadramento cenográfico e monumental da panorâmica.

Relacionado com o enquadramento está o ponto de vista, que nestas fototipias é afastado e abrangente (ou seja, trata-se de planos gerais), de modo a mostrar a obra por inteiro, em toda a sua plenitude. Torna-se até interessante pensar sobre o local em que estaria Biel colocado para conseguir obter as vistas. O ponto de vista mais comum é o que está ao nível dos olhos, mas também o plano picado (por exemplo, na fototipia “Viaducto da Palla e do Ovil”) e o plano contrapicado (por exemplo, na fototipia “Viaducto da Teja”) é recorrente. Estas características pressupõem uma reflexão e preparação prévia, pelo que não se trata de um registo mecânico, desprovido de sensibilidade artística.

A composição e o ponto de vista das fototipias têm como objetivo enfatizar as obras e a sua relação com a enormidade das montanhas trespassadas pelo “pequeno” comboio. Assim se obtém uma noção da escala. Em algumas fototipias, perdemo-nos na paisagem que é proporcionada e o comboio é um pequeno ponto que deve ser descoberto na imensidão das montanhas e rio.

De igual forma, denota-se um cuidado aproveitamento da luz natural, o que está patente em fototipias como “Viaducto da Teja”, na qual vemos a obra ao centro, iluminada e destacada e a natureza à volta menos iluminada, criando um jogo de sombras que conduz o olhar para o viaduto, o que está potenciado pela composição e ponto de vista (contrapicado). Em fototipias como “Estação do Juncal e Tunnel dos Encambalados” praticamente vê-se os raios de sol passarem por entre as nuvens e iluminarem a paisagem.

Todos estes pontos são relevantes, pois a “fotografia consiste essencialmente num conjunto de ciência prática, imaginação e desenho, habilidade técnica e capacidade organizativa.”

“Costumes de Portugal”

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O bilhete-postal ilustrado foi outro domínio em que a Casa Biel teve uma significante atividade, produzindo cerca de 500 bilhetes-postais. Na época, o postal era uma forma importante de fazer chegar a mais pessoas as imagens dos álbuns de grandes dimensões, que só eram acessíveis a um público reduzido.

A temática etnográfica foi uma temática importante para Emílio Biel e constitui uma das mais importantes coleções de postais: “Costumes Portugueses”.

A recolha para esta coleção foi feita ao longo de anos para outras obras publicadas como “Viticultura e Vinicultura”, “Trás-os-Montes e Alto Douro Central” e “O Minho e as Suas Culturas”, de 1871 a 1900, até neste último ano serem congregadas na coleção “Costumes de Portugal”.

As tiragens atingiram valores consideráveis e foram reeditadas por várias vezes por constituírem uma boa fonte de receitas. Assim, a coleção foi continuada na “Costumes Portugueses”. Esteve também presente na generalista “Coleção Emílio Biel e C.ª”, de 1889.

A coleção de “Costumes Portugueses” é uma série de 29 albuminas (com um dimensão de 16x22cm), que apresenta costumes do Algarve ao Minho, passando pelo Douro, Porto, Lisboa e Alentejo. Esta coleção já recorreu ao uso da cor.

A recolha resultou também no “Album Phototypico de Vistas e Costumes do Norte de Portugal”, de 1900, que conta com 21 fototipias a sépia.

Alguns exemplares foram ainda publicados noutros formatos, como nas revistas “Ilustração Portuguesa” e “O Occidente”.

Quer nas fototipias do álbum, quer nos bilhetes-postais ilustrados, a legenda é direta e informativa. Nos considerados retratos, a legenda consiste numa simples identificação da localidade, cujos costumes estão representados pelo protagonista (por exemplo, “Coimbra”); já nas fototipias que representam cenas do quotidiano, as legendas identificam a atividade e a localidade (por exemplo, “Lavadeiras no Rio Cávado”).

Tanto nas coleções como no álbum, as pessoas e os costumes, isto é, as tradições que representam, são protagonistas. No caso do álbum, 13 das fototipias são retratos e as restantes 8 são situações dos costumes representados. Relativamente aos retratos, a maioria são de mulheres (apenas se observa um homem), nos quais aparece a pessoa retratada ao centro, em plano aproximado ou inteiro, com as vestes e acessórios tradicionais, a olhar para o horizonte, enquadradas num contexto natural, ou sem nenhum contexto. Verifica-se que a composição foi pensada de modo a sobressair a pessoa protagonista.

As restantes fototipias do álbum são planos gerais de atividades do quotidiano das localidades, nas quais aparecem diversos intervenientes, sem que haja um protagonista, em diferentes contextos, desde a lavagem da roupa no rio, a uma romaria ou à lavoura. Apesar de serem fototipias sobre um determinado momento, não permitindo a mesma preparação e manipulação dos elementos como nos retratos, observa-se cuidados relativamente à composição e ao ponto de vista, bem como à luz que é fundamental (o que está até na sua etimologia, pois “foto” significa “luz”) e Emílio Biel soube aproveitar a luz de forma adequada, quer nas fototipias do álbum, quer nas albuminas.

No caso da coleção “Costumes Portugueses”, as albuminas são todas retratos nos mesmos moldes dos que aparecem no álbum. Em alguns os protagonistas surgem posando, sem qualquer contexto ou num contexto composto propositadamente, noutros são retratados na execução dos trabalhos tradicionais.

No álbum e nas coleções, estamos perante uma grande diversidade de registos fotográficos, o que é comum a todos é a intenção de perpetuar as tradições locais com uma qualidade técnica e estética assinalável.

Conclusões

Emílio Biel é uma personalidade incontornável no Porto do século XIX. Na atividade fotográfica, desenvolveu aquele que foi considerado por António Sena como “o mais importante trabalho de levantamento e documentação do país durante o século XIX” e a primeira tentativa sistemática de “vulgarização dos monumentos, obras de arte, costumes e paisagens do país”, o que está patente em trabalhos como os aqui analisados. Assim, a sua obra representa uma das principais referências para ilustração fotográfica portuguesa. 

Obras citadas:

Baptista, Paulo “A Casa Biel e as suas Edições Fotográficas no Portugal de Oitocentos”, Lisboa: Colibri, 2010
Langford, Michael “Fotografia Básica”, 2ª edição, Lisboa: Dinalivro, 1989
Sena, António “História da Imagem Fotográfica em Portugal: 1839-1997”, Porto: Porto Editora, 1998
 

Ana Bárbara Matos

Ciências da Comunicação: Jornalismo, Assessoria e Multimédia // Faculdade de Letras da Universidade do Porto // 2013-2014

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