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Guillaume Pazat nasceu em França, em 1970.
É membro cofundador do coletivo Kameraphoto e trabalha como fotógrafo para vários jornais e revistas europeias desde 1998, altura em que se mudou para Lisboa.
O fotógrafo é licenciado em Engenharia Industrial pela Universidade de Estrasburgo e mestre em Cinema Digital pela ‘Trazos School of Arts’, em Madrid.
Hoje em dia, Guillaume desenvolve também projetos na área do vídeo-arte e da realização cinematográfica.
Vive atualmente em Paris.

CASAL VENTOSO (2000)

O objetivo essencial das foto-reportagens é, geralmente, situar, documentar, mostrar a evolução e caracterizar desenvolvidamente uma situação real e as pessoas que a vivem’ (SOUSA, 2004).

Entre fevereiro e março do ano 2000, Guillaume Pazat realizou uma foto-reportagem no bairro Casal Ventoso, em Lisboa, da qual resultaram 8 fotografias impressionantes de um pai e um filho toxicodependentes. Estas fotografias valeram a Guillaume uma Menção Honrosa do PRÉMIO VISÃO FOTOJORNALISMO 2000, o segundo prémio na categoria ‘Reportagem’ do PRÉMIO VISÃO 2001, e o prémio do Sindicato de Jornalismo.

Em 2000, a foto-reportagem de Pazat foi publicada no livro ‘Prémio VISÃO Fotojornalismo 2000’. Nessa publicação, as fotografias fazem-se acompanhar do texto de Luísa Jeremias onde se pode ler: ‘Durante dois meses, Guillaume Pazat mergulhou no Casal Ventoso, para viver e conviver com os seus habitantes. Aqueles que, sem motivo aparente, escolheram como casa a rua, companheiras as seringas, como razão para acordar cada dia a necessidade de mais uma dose de heroína. O retrato desse quotidiano cruel pode ser visto, da forma mais fria, através da lente de Pazat. Imagens que contam histórias. Como a de um pai e um filho, que naquele ambiente, vão (sobre)vivendo, alimentados pela droga.’.

‘Uma determinada foto não se distingue nunca do seu referente (daquilo que representa) (…) a Fotografia traz sempre consigo o seu referente, ambos atingidos pela mesma imobilidade amorosa ou fúnebre, no próprio seio do mundo em movimento: eles estão colados um ao outro, membro a membro (…)’ (BARTHES, 1980).

A afirmação de Roland Barthes na sua obra ‘A Câmara Clara’ consegue explicar perfeitamente porque é que nos envolvemos tanto com a realidade retratada por Pazat na foto-reportagem ‘Casal Ventoso’. Depois de vermos estas fotografias, ficamos com a sensação de que tomamos conhecimento de uma realidade até então desconhecida ou, pelo menos, camuflada. Da sabedoria popular que nos diz que ‘o que os olhos não veem o coração não sente’, surge nova explicação para a possível reação da maioria dos observadores. Quando assistimos à apresentação destas fotografias, não nos conseguimos abstrair do que elas nos transmitem / contam. Tal como defendido por Barthes, ‘a Fotografia traz sempre consigo o seu referente’, o que explica o facto de a emoção ser o principal motivo para gostarmos mais de uma fotografia do que de outra. Para nos envolvermos mais com uma fotografia do que com outra. E para nos impressionarmos tanto com o que nos é aqui retratado por Guillaume Pazat.

Neste trabalho, o fotógrafo dá-nos uma visão crua e dura da realidade vivida naquele local. As oito fotografias de Pazat, contam-nos da forma mais fria e cruel possível a história destes dois homens, sem nunca nos deixar saber o fim. Nesta foto-reportagem não existe manipulação para tentar apurar outra coisa que não seja a realidade cruel dos que, por motivos que nos são alheios, escolheram viver assim.

FOTOGRAFIAS 1 e 4: nestas fotografias, o que fica mais explícito quanto à técnica utilizada pelo fotógrafo é o jogo de profundidade. ‘À distância entre os pontos nítidos mais próximo e mais afastado do ponto focado chama-se profundidade de campo. Em termos simples, a profundidade de campo é a zona nítida da imagem, em termos de profundidade’ (SOUSA, 2004). Nas duas fotografias analisadas, Pazat opta por focar o objeto que está mais afastado da objetiva, relevando esse objeto em relação ao que se encontra em primeiro plano. A atenção do observador da imagem vai, necessariamente, para o objeto focado e cumpre o objetivo do fotógrafo. No entanto, o desfoque do primeiro plano é mais acentuado na 4ª fotografia, o que faz com que na 1ª ainda exista uma forte probabilidade da atenção do observador se dividir. Essa divisão pode também ser explicada pela carga emocional do primeiro plano da 1ª fotografia, que contrasta com a força da expressão do olhar do homem focado, ao fundo.

FOTOGRAFIA 2: nesta fotografia, o jogo de profundidade de campo é utilizado precisamente ao contrário, sendo focado o homem que está em primeiro plano e desfocado o ambiente e as restantes pessoas presentes na imagem. A força desta imagem está na ação praticada por este homem, o que poderá justificar a opção tomada pelo fotógrafo.

FOTOGRAFIAS 3 , 5 e 7: nestas fotografias Pazat optou por planos de conjunto, que são ‘planos gerais mais fechados, onde se distinguem os intervenientes da ação e a própria ação com facilidade e por inteiro’ (SOUSA, 2004). Estas fotografias dão conta ao observador do ambiente e da realidade vivida no local.

FOTOGRAFIAS 6 e 8: nestas fotografias o fotógrafo utiliza duas perspetivas do mesmo interveniente. Na primeira imagem Pazat optou por um grande plano da ‘personagem’. Nesta imagem não fica muito claro se terá sido solicitado algum tipo de pose específica ao homem fotografado, pela forma como olha diretamente para a câmara e por estar a segurar um terço que parece virar propositadamente para a objetiva. Na segunda imagem é dado um plano mais geral, que situa o observador. O homem encontra-se ao centro da fotografia e a sua ação é pouco perceptível.

NOTA: a foto-reportagem ‘Casal Ventoso’ está disponível online no site do Kameraphoto.

ESTAÇÃO DO CALOR (2008)

No primeiro trimestre de 2008 Guillaume Pazat realizou, em conjunto com Luís Pedro Cabral e Jordi Burch, o projeto multimédia ‘Estação do Calor’. Estas reportagens, baseadas na temática da Ecologia, foram realizadas ao longo dos 3 meses entre a Argentina e o Chile, e foram divulgadas na edição papel da revista Visão e também num blogue implementado e alimentado diariamente ao longo do percurso. Desta viagem foram 30 as fotografias selecionadas para integrarem o projeto, agora também disponíveis online no site do Kameraphoto.

No blogue (http://www.estacaodocalor.org/), hoje já desativado, podia ler-se no dia da despedida:

As viagens nunca são o que planeamos. As viagens nunca são viagens se as planearmos geometricamente e as cumprirmos como às ordens de um comandante de excursão. As viagens são olhares. E os olhares não se planeiam. As viagens são esquinas. Nunca sabemos o que está para lá. As viagens são dureza. E são leveza. A leveza mais leve do mundo. As viagens não são longitude e latitude, meridianos e ângulos, perpendiculares e códigos postais. Isso é outra coisa. Isso são graus e traços a compasso e as fronteiras que o mundo tem.
As viagens são os pedaços de mundo, que se recolhem nos pontos inexactos e improváveis onde as pessoas se cruzam com as pessoas, deixando com elas qualquer coisa de nós, transportando nós qualquer coisa delas, em silêncios, em palavras, em gestos, em sorrisos, em coisas simples, indetermináveis, determinantes, parando em movimento, parando o movimento do comboio global e mecânico onde seguem os passageiros do quotidiano. As viagens são a alegria absoluta. E são desalento e desespero e imprevisibilidades e cansaço e força que se encontra. E saber que no dia seguinte não sabemos o caminho. E saber que há um recomeço de tudo, de tudo quanto está por ver, por saber, por experimentar, por conhecer. Viagem que é viagem só começa, nunca termina, entranha-se, adquire vida própria e, dentro, viaja. E, dentro, viaja muito depois de termos chegado.

As viagens somos nós. As viagens são sempre a nós, aos nossos confins, aos sítios de nós onde ainda não tínhamos estado. Quanto mais conhecemos do mundo, mais ele se torna maior. E nisso não existe maior grandeza.’.

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Em 2009, Guillaume Pazat realizou a sua primeira exposição individual, na Kgaleria em Lisboa, precisamente com algumas das fotografias do projeto ‘Estação do Calor’. À exposição, Pazat deu o nome ‘Sensation’ e apresentou 15 fotografias. Esta seleção também pode ser consultada no site do Kameraphoto. A propósito desta exposição, o fotógrafo deu uma entrevista ao P2 onde explicou ‘São fotografias que falam mais de mim do que sobre a viagem de três meses que fiz entre Buenos Aires e o Peru, passando pela Patagónia e Ushuaia e depois subindo o Chile até ao deserto de Atacama. Podiam ter sido feitas na Europa, podiam ter sido feitas em qualquer sítio’.

FOTOGRAFIAS: as imagens que resultaram desta viagem são absolutamente impressionantes, pelo seu jogo de luz e sombra e pelas suas cores tão quentes que quase transportam o observador para o lugar representado. A utilização da cor nestas fotografias parece ser o maior trunfo do fotógrafo, pois ‘A cor permite atrair a atenção, mas também é um agente conferidor de sentido, em função do contexto e da cultura’ (SOUSA, 2004). Pazat utiliza, neste sentido, perfeitamente as potencialidades da cor. A utilização de cores próximas como o laranja, vermelho e amarelo torrado, cria uma harmonia cromática perfeita. Noutras fotografias, Guillaume recorre muito ao jogo de luz e sombra e ao contra-luz, o que confere às imagens um contraste e valor estético muito vincados.

Outras informações relativas à exposição: 12 provas 40X60cm // 1 prova 1MX67cm // 2 provas 1MX1,5M

NOTA2: teria sido interessante perceber as opções de Guillaume Pazat, nomeadamente no que respeita às diferenças entre o editorial realizado para a revista Visão e a exposição que se seguiu, mas não foi possível entrar em contacto com o fotógrafo.

BIBLIOGRAFIA:

BARTHES, R. (1980), A Câmara Clara. Edições 70 Ltda. Lisboa

KAMERAPHOTO, online em: http://www.kameraphoto.com/?lang=pt

NADAIS, I. (2009), Esta América podia ser em qualquer parte do mundo. P2, Público. online em: http://artephotographica.blogspot.pt/2009/06/sensation.html

SALDANHA, F. (coordenação), (2000), Prémio VISÃO Fotojornalismo 2000. Abril/Controljornal Editora, Lda. Linda-a-Velha

SOUSA, J. Pedro (2004), FOTOJORNALISMO: Introdução à história, às técnicas e à linguagem da fotografia na imprensa. Letras Contemporâneas Oficina Editorial Ltda. Florianópolis

Isadora Faustino. 3º ano. Ciências da Comunicação: jornalismo, assessoria e multimédia.
Faculdade de Letras da Universidade do Porto

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