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Biografia

Foi no ano de 1855, na cidade de Coimbra que nasceu José Augusto Cunha Moraes, que se viria a revelar um dos maiores fotógrafos portugueses.

Apenas com 8 anos, mudou-se para Angola, onde o pai tinha um estúdio de fotografia. Mas, quando os pais faleceram, voltou a Portugal com o objectivo de prosseguir os estudos. O gosto pela fotografia era já de família e Cunha Moraes decidiu voltar a Luanda para tomar conta do estúdio fotográfico da família, coincidindo essa época com o período de ouro das expedições africanas e sendo Luanda um porto de partida e chegada dos exploradores de todas as nacionalidades.

A maior parte da sua produção em África desenvolve-se entre 1877-1894, publicando fotografias na revista “O Occidente” e na “Arte Photographica”. Para além disso, produziu colecções para enviar a várias Exposições Industriais.

Mais tarde, regressa a Portugal e colabora na Casa Biel, desenvolvendo importantes trabalhos em conjunto com outros fotógrafos, nomeadamente A Arte e a Natureza em Portugal.

José Augusto da Cunha Moraes, viria a falecer 78 anos depois, em 1933, no Porto, deixando importantes marcas no âmbito de trabalhos fotográficos relativos a terras coloniais e a Portugal.

África Occidental, Álbum Photográphico e Descriptivo 

Em 1882, Cunha Moraes publica um álbum com fotografias de África Ocidental e entre 1885-1888, publica 4 volumes intitulados Africa Occidental – Album Photográphico e Descriptivo sob a responsabilidade de David Corazzi, com prefácio de Luciano Cordeiro e fototipias produzidas na Casa Biel (no Porto) com quem viria a trabalhar mais tarde.

Estes volumes constituíram o primeiro trabalho fototípico de monta produzido na Casa Biel.  Os volumes estão divididos de forma geográfica, isto é, ordenados por diferentes zonas do continente Africano. Contém todos 40 imagens, exceptuando o primeiro volume com 38 imagens, o que perfaz um total de 158 fototipias. Todas as imagens foram publicadas, acompanhadas por textos explicativos (aos quais é difícil ter acesso).

Dimensão e suporte: 1 álbum (29,5×21,5x2cms); com 38 documentos fotográficos em papel (fototipia)

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Nesta primeira parte do álbum, José Augusto da Cunha Moraes descreve a região que vai “do rio Quillo ao Ambriz”. É o única parte com 38 fotohrafias e inicia com uma dedicatória e oferta do autor “Aos exploradores Portuguezes”. Tal como nos restantes volumes, o fotografo deixa-se envolver pelo ambiente africano e faz parte deste continente repleto de encantos naturais, humanos e onde as condições geográficas, climatéricas e mesmo as dimensões culturais são totalmente diferentes do mundo ocidental.

A Arte e a Natureza em Portugal

O período da vida de José Augusto da Cunha Moraes em África é, normalmente, mais conhecido e associado ao seu nome. Talvez devido à marca que deixou no império colonial e às memórias que nos são possíveis graças a este fotografo. No entanto, o seu trabalho não se ficou por terras africanas.

No ano de 1897, Cunha Moraes regressa definitivamente a Portugal. Instala-se no Porto, onde o irmão é proprietário de uma casa de fitas. Mas o gosto pela fotografia não desaparece e é assim que surge a sociedade com Emílio Biel.

Colabora na Casa Biel desde 1900, como sócio de uma das suas secções de publicações e promove esta actividade que estava um pouco parada desde 1880, após a publicação de Os Lusíadas e do político Plutarcho Portuguez. Ajuda também na publicação de álbuns de temática religiosa e dos famosos postais ilustrados de Biel.

Desta sociedade, começam a surgir publicações na revista O Ocidente daquilo que virá a ser A Arte e a Natureza em Portugal.

É nesta altura que a firma de Emílio Biel sofre alterações e se passa a dividir em duas grandes secções: a secção das industrias gráficas (fotografia, fototipia e litografia), da qual fazia parte o sócio Fernando Brütt e a secção de publicações pela qual José Augusto da Cunha Moraes era responsável.

Por incentivo de Joaquim de Vasconcelos, entre 1902 e 1908, é publicada em 8 volumes, a obra propriamente dita “A Arte e a Natureza em Portugal”, dirigida pelo seu sócio e fotógrafo Fernando Brutt e por Cunha Moraes.

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Durante anos, Emilio Biel tinha já vindo a desenvolver um verdadeiro levantamento iconográfico que permitiu, então, a produção de uma obra tão importante e extensa como A Arte e a Natureza em Portugal (acima imagens do volume primeiro desta extensa obra)

Neste primeiro volume, assim como em todos os outros, as fotografias estão a sépia, tendo em conta a época em que foram retratadas é absolutamente normal isto acontecer. Quando analisamos este tipo de fotografias, associamos logo a antiguidade e anos de história.

No que diz respeito à técnica de impressão, a utilizada foi a fototipia.

Na segunda metade do século XIX, os aspectos técnicos da reprodução de imagens tiveram um progresso assinalável.

A fototipia é um processo fotomecânico no qual uma chapa de impressão coberta por uma camada de gelatina bicromato é exposta à luz sob um negativo fotográfico, obtendo-se, dessa forma, uma matriz que permite realizar impressões em papel com tintas gordas. Esta técnica de impressão foi um sucesso. Sucesso que se deveu, em grande parte, ao facto de se confundir com os originais fotográficos e de permitir a impressão do papel (por exemplo com as legendas das imagens) podendo ser mais facilmente integrada em livros.

Em Portugal, foi Carlos Relvas quem introduziu a fototipia. A Casa Biel aproveitou esta técnica de forma muito aprofundada, com uma produção numerosa e de qualidade. E é precisamente com esta ténica de impressão que são reproduzidos os oitos volumes de A Arte e Natureza em Portugal.

Cunha Moraes partilhou a responsabilidade técnica d’Arte e Natureza em Portugal com Fernando Brütt, primeiro colaborador e sócio de Emílio Biel no negócio da fotografia e também um notável fotógrafo. Para a colaboração literária, Biel pôde reunir um conjunto de personalidades que valorizaram a obra conferindo-lhe um importante prestigio em termos científicos, beneficiando da longa e frutuosa colaboração com Joaquim de Vasconcelos, seguramente uma âncora no projecto e das contribuições de figuras como Carolina Michaelis de Vasconcelos, Gabriel Pereira, Ramalho Ortigão, Augusto M. Simões de Castro, Albano Belino, Júlio de Castilho e Manuel Monteiro.

A longa edição d’A Arte e a Natureza em Portugal em fascículos organizados geograficamente obedeceu a três temáticas bem definidas: o património, os costumes e a paisagem. A etnografia despontava como disciplina científica mas era também fruto de um gosto romântico que tinha raízes culturais e literárias. A paisagem era um caso muito particular da marca pessoal que Emílio Biel deixou na obra, com a modernidade de a encarar como património numa situação inovadora na sociedade portuguesa. No seu conjunto as três temáticas dominantes d’Arte e a Natureza em Portugal acabam por cruzar o gosto romântico traduzido em ideário nas Viagens na minha terra de Almeida Garret com a leitura bucólica d’As Pupilas do Senhor Reitor com que Júlio Dinis tão profundamente marcou a sociedade portuguesa de Oitocentos e Novecentos.

As linhas temáticas d’Arte e a Natureza em Portugal tiveram consequências estéticas na obra, em particular o tema da paisagem e do seu cruzamento com o património.

Todos os volumes contêm uma introdução. Incluem fotografias de monumentos, obras de arte, costumes e paisagens, neste caso de Guimarães, Barcelos, Évora, Porto, Lisboa, Coimbra e arredores, Sintra e Lorvão. Em cada área geográfica abrangida, existe um texto de apoio a cada fotografia.

A Arte e a Natureza em Porutgal constitui uma verdadeira obra de arte, um marco importante para a fotografia portuguesa, representando o mais marcante repertório iconográfico do século XIX e início do século XX. Dificilmente a união das palavras arte e natureza se podia ter concretizado de forma tão feliz e consequente como nesta obra.

Prémios

José Augusto da Cunha Moraes foi reconhecido no seu tempo, pelo diverso trabalho fotográfico que realizou ao longo da sua carreira profissional.

O seu mérito foi destacado em diversas Exposições com prémios e participações que lhe foram atribuídos. Entre muitos outros, Cunha Moraes participa no ano de 1884 na Exposição Insular e Colonial Portuguesa realizada no Palacio de Crystal Portuense (actual Pavilhão Rosa Mota), tendo recebido uma medalha de ouro no 1º Grupo com uma Collecção de photografias de assumptos coloniais africanos; no ano de 1885 participa na Exposition Universelle de Anversa, de onde sai com vários prémios em diferentes categorias, entre os quais uma medalha de bronze e uma menção honrosa. Finalmente, no ano de 1886 participa na Exposição Internacional Photographia, mais uma vez realizada no Palacio de Crystal Portuense tendo-lhe sido atribuído o primeiro prémio, medalha de ouro.

Conclusão

José Augusto da Cunha Moraes, é considerado por muitos, como um dos mais importantes fotógrafos portugueses. É indiscutível o legado que nos deixou, legado esse que ainda hoje é revisitado por muitos que admiram o seu trabalho. Cunha Moraes alia a técnica à arte e à grande paixão que tinha por África e por Portugal. As suas fotografias reflectem uma grande envolvência pelo que fotografa, demonstrando uma percepção individual intensa, resultante de uma grande observação e experiencia do objecto.

Ainda que nascido num período muito anterior ao período de ouro do fotojornalismo em Portugal, José Augusto Moraes praticou o seu próprio fotojornalismo, deixando patente em várias publicações memórias preciosas para todos.

Falar de todas as fotografias de José Augusto Cunha Moraes seria impossível. O legado que nos deixou é tanto e deve ser preservado. E merece ser recompensado.

Bibliografia

SENA, António, História da Imagem Fotográfica em Portugal, 1839-1997. Porto: Porto Editora, 1998

PEREIRA, Maria de Fátima, Casa Fotografia Moraes – a modernidade fotográfica na obra dos Cunha Moraes, Porto, 2001.

BAPTISTA, Paulo, A Casa Biel e as suas edições fotográficas no Portugal de Oitocentos, Lisboa: Colibri, 2010

Sara Silva

 Ciências da Comunicação: Jornalismo, Assessoria e Multimédia
 Faculdade de Letras da Universidade do Porto // 2013-2014
 
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