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«O fotojornalismo português tem um pai e chama-se Joshua Benoliel. A obra deste pioneiro do jornalismo fotográfico é pouco divulgada e a sua importância nunca enquadrada historicamente de forma a dar-lhe a importância determinante que tem no nascimento de um fotojornalismo português. As suas fotografias são mostradas muitas vezes sem a indicação de que são de sua autoria, como se fossem documentos anónimos, de domínio público, sem autor. A obra de Benoliel está dispersa, muitas das suas chapas de vidro – o suporte com que ele trabalhou predominantemente – partiram-se, sumiram ou foram dadas como cacos inúteis.» 

Luiz Carvalho, fotojornalista in Jornal de Letras 19-07-2005

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Joshua Benoliel nasceu em 1873. Apesar de uns apontarem o Norte de África como local de nascimento (isto porque a sua família, de origem hebraica, instalou-se em Gibraltar) há historiadores que afirme que foi Lisboa. Mas ninguém discorda quanto ao título de “pai do fotojornalismo português”. Benoliel cobriu os grandes acontecimentos da sua época e trouxe novidades para o jornalismo, que se transformou a partir de então. Benoliel foi oficial da Ordem Militar de Sant’Iago de Espada o que lhe deu uma postura que muitos lha gabam: o facto de usar “artifícios e truques extremamente úteis” em todos os seus trabalhos. Talvez seja por essa razão que as suas fotografias trouxeram uma nova marca ao jornalismo. Benoliel foi o responsável pela implementação de um novo género no jornalismo em Portugal: a fotorreportagem. Benoliel é, assim, o responsável por trazer conceitos como furo e imagem-história ao jornalismo e por recorrer a técnicas de estúdio para os trabalhos de rua, impondo o conceito de urbanidade. Omnipresente com boa figura, Joshua viveu num período de transição entre a monarquia e a república, o que lhe permitiu acompanhar acontecimentos históricos, como a 1ª Guerra Mundial, a Implantação da República e a morte de D. Carlos.

Além disso, as fotografias que Joshua tirou são fotografias que marcam também uma mudança no paradigma visual, isto porque implementou novos valores como o intimismo ou o humanismo, com um estilo muito próprio, capaz de transmitir eficazmente as realidades sociais e vincando um estilo muito próprio. Benoliel traz uma série de novos conceitos, como servem de exemplo, a mobilidade e a operacionalidade, distintivos das fotorreportagens.

Benoliel trabalhou para diversas publicações, quer portuguesas, quer estrangeiras, das quais se destacam o jornal O Século e as revistas Illustração Portugueza e Occidente, Mala da Europa, Tiro, Sport e Brasil-Portugal. Desta forma, o fotógrafo assumiu um papel importante na divulgação da cultura portuguesa.

A par das fotografias enviadas para publicações estrangeiras, Benoliel enviava sempre um texto descritivo daquilo que as suas fotos espelhavam, como serve de exemplo a imagem que se segue.

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Joshua, que morreu em 1932, em Lisboa, vítima de doença, teve um percurso muito próprio e marcante para o jornalismo português e foi inspiração para o afirmar do fotojornalismo em Portugal.

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Repórter Parlamentar

Joshua é considerado por vários autores como o repórter parlamentar que usou os tais “artifícios e truques”, acabando por trazer novas táticas e conceitos à fotografia, deixando a nitidez, o estatismo e a cenografia de parte. Ao longo de toda a sua carreira (mais incidente entre 1906 e 1918), é considerado como um homem de boa figura que respondia “homem, sou fotógrafo”, quando lhe perguntavam se era republicano ou monárquico. A excelente relação com a Casa Real Portuguesa abriu-lhes portas e deu-lhe o título de “repórter parlamentar” e abri-lhe portas exclusivas que outro fotógrafo não alcançou. O profissionalismo de Benoliel também se traduz pela sua presença. Benoliel soube “estar presente em todas as situações, restituir o ambiente no seu todo, procurar integrar o leitor no acontecimento, querer a sua participação”, como defendem autores como Emília Tavares e José Pedro Aboim.

Joshua “mostrou a fotografia tal qual ela é: a verdade subjectiva de uma realidade objectiva” (ABOIM: 1984) e uma forte preocupação com o conteúdo informativo das imagens, transmitidas segundo uma “visão clara e nítida”. A cada acontecimento, Benoliel “sabia arrancar-lhe todo o interesse jornalístico” (ABOIM: 1984). As suas imagens transmitiam um carácter muito social e humano onde o cidadão comum era o protagonista da sua fotografia. Para Benoliel, “mais vale um bom cliché do que um óptimo artigo”.

 “A personalidade de Benoliel espelha-se nas suas imagens, denotando-se tanto no tratamento dos retratos como no dos instantâneos. Se foi escasso no que deixou escrito, tanto sobre si próprio como sobre a sua profissão, o enorme espólio de clichés permite-nos hoje estabelecer o percurso extraordinário, tanto profissional como pessoal, ambos indissociáveis, deste homem”, José Pedro de Aboim Borges

 

Illustração Portugueza e Occidente

Apesar de ter retratado Portugal em muitas publicações, é nas revistas Illustração Portugueza e Occidente que dão notoriedade ao trabalho de Benoliel. José Pedro Aboim defende que “é com a Illustração Portugueza que o se nome se afirma”. Esta revista era liderada por Silva Graça e constituída por uma equipa de choque no panorama jornalístico. A revista chegou a aintigr uma tiragem de 24 mil exemplares, em 1908. Numa altura em o país tinha 5 milhões de habitantes a taxa de analfabetismo rondava os 80%, pode considerar-se um feito histórico. Joshua colaborou com a Illustração Portugueza durante 12 anos, enviando semanalmente mais de 180 fotografias para a revista (todas em placas de vidro, de gelatino-brometo, de formato 9×12 cm. Ao mesmo tempo, Joshua enviava cerca de 50 fotografias para as restantes publicações com quem colaborava. Semanalmente, o fotógrafo divulgava cerca de 260 fotografias.

Quanto à revista Occidente, sediada em Lisboa, era feita por vultos da cultura portuguesa. Recebeu prémios internacionais e esteve em exposição em diversas capitais europeias. Nesta revista, a participação de Joshua era menor. Tanto numa publicação como noutra, as reportagens de Benoliel mostravam a instantaneidade do momento e as mensagens que queria transmitir eram claras, sem dar nunca a sua opinião. “Fotógrafo não opina, apenas retém o instante que passa”, disse Benoliel.

Fotorreportagens

As três fotorreportagens analisadas mostram realidades diferentes, exprimidas por Joshua Benoliel. Se a primeira retrata as cheias do Douro em 1910 (publicada na Illustração Portugueza), a segunda mostra os batalhões de soldados a partirem para França, em 1917, durante a 1ª Guerra Mundial (publicada na Illustração Portugueza) e a terceira mostra a Implantação da República, em 1910 (publicada na revista Occidente e em vários números).

1. Cheias no Douro, 1910 – Illustração Portugueza

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Esta é uma fotorreportagem bem ao estilo de Benoliel que retrata, sem tirar nem por, aquilo que aconteceu na zona ribeirinha da cidade do Porto. Através de planos gerais, Benoliel mostra a destruição que as cheias provocaram, como o barco deslocado, os materiais arrastados e o poste inclinado pela corrente da água, na primeira fotografia. No fundo, há aqui uma descrição muito exata da realidade urbana desorganizada. Benoliel foi ao sítio, incluiu-se no ambiente e mostrou de forma exata o que tinha acontecido. Na segunda imagem, também num plano geral, Benoliel mostra a curiosidade das pessoas que espreitam o nível das ágias que quase atinge o primeiro tabuleiro da ponte D. Luiz. Além disso, esta fotografia mostra a grandiosidade das cheias e a bravura da corrente que arrasta materiais. Outro pormenor interessante, é o facto de o barco parecer que não passa debaixo da ponte, tal é o volume da água. A terceira fotografia mostra de novo o caos, apesar de parecer mais organizado. Mas isso já advém das casas encimadas e muito compostas. Apesar de tudo, são bem visível os estragos que as cheias provocaram e em ponto pequeno, uma pequena embarcação com homens do Douro, o que mostra a pequenez do Homem face a tamanha tempestade. A quarta fotografia vai de encontro às outras duas anteriores, em que se mostra a curiosidade da população e a grandiosidade da tempestade. A quinta fotografia é mais deslocada da zona ribeirinha e mostra a foz do Douro, onde o mar se mostra agitado. Todas as fotografias são a preto e branco e traduzem bem as características profissionais de Benoliel: o humanismo que coloca estes homens e mulheres como fulcrais à mensagem transmitida pela fotografia e um bom retrato de fotojornalismo, assumido pelas características presentes: urbanidade e realidade. A fotorreportagem pode ser consultada aqui.

2. A Caminho do Dever, 1917 – Illustração Portugueza

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Esta segunda fotorreportagem escolhida mostra uma realidade comum em tempo de guerra, como foi em 1917, quando os soldados portugueses foram chamados para intervir, em França. Todas elas são fotos demasiado intimistas que traduzem gestos, carinho e a relação familiar. Há planos próximos, que mostram os detalhes profundos que ajudam a contar estas histórias pessoais, alheias a todos, mas muito tocantes pessoalmente. Há uma proximidade muito grande nestas fotografias, o que faz recuperar aqui a característica de Benoliel que põe o cidadão comum no centro da fotografia. São gestos, são pessoas comuns que sofrem com a realidade europeia onde Portugal é chamado a participar. A primeira fotografia mostra a despedida de um soldado da sua família, possivelmente a sua esposa. São eles que assumem o papel principal nesta fotografia onde, apesar de se notar confusão, os outros passam alheios à despedida que ali acontece. Os olhares são distantes, as pessoas estão confusas com tudo o que está a acontecer e sabem que a guerra é uma batalha difícil, pelo que cada despedida é como um adeus muito sentido. A segunda, terceira e quarta fotografias mostram a organização do exército. Benoliel mostra aqui um olhar atento. Estes soldados aparecem alinhados, símbolo do rigor da tropa e rodeados de familiares que se foram despedir. Possivelmente, uns são curiosos apenas que assistem à partida dos batalhões. Joshua capta estes momentos de um ponto de vista muito geral, mas ao mesmo tempo particular. A organização dos militares constrasta quase sempre com o que os rodeia. A postura, intrinsecamente ligada a estes homens, contrasta com a confusão em redor,  como transmitem os carros que carregam os seus materiais ou as pessoas que se juntam em redor. A última fotografia é de carácter intimista forte. Uma vez mais, o sentimento à flor da pele. Soldados que se despedem dos familiares com cartas. Humanismo transmitido pela objectiva de Benoliel que assegura um retrato fiel de Portugal em 1917. A fotorreportagem estende-se por vários números da Illustração Portugueza. Uma parte pode ser vista aqui.

3. Implantação da República, 1910 – Occidente

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A última fotorreportagem pertence a vários números do Occidente e mostra que Joshua saiu à rua neste período de transição entre a monarquia e a república para espelhar a realidade essencialmente de um povo revoltado. E digo povo porque as mulheres assumem também um papel de destaque neste trabalho de Benoliel. Esta fotorreportagem transmite a desorganização das ruas e mostra a vontade de um povo em mudar, pela postura firme, pela concentração em espaços públicos vitais e armamento que será usado, caso a sua vontade não seja cumprida. A primeira fotografia mostra precisamente isso: a postura dos militares, o canhão, o estar pronto a disparar e a segunda e terceira fotos completam este raciocínio de uma forma mais alargada. Há mais pessoas, há canhões maiores, há armas prontas a ser usadas. Há rostos carregados de dias de luta. Apesar das armas, todo o ambiente mostra alguma tranquilidade, também captada por Benoliel. A quarta e quintas fotos, mostram o papel das mulheres nesta luta. Primeiro, porque assumem um papel de destaque junto aos homens que querem mudar o rumo do país, como um grito a uma só voz. Depois, porque querem fazer-se mostrar. Ainda que com os lenços que trazem à cabeça e o aspeto mais frágil, querem juntar-se à revolta, querem ser mãos de luta também. Uma parte da fotorreportagem, para ver, aqui. Acredito que para Benoliel, este tenha sido um momento difícil de fotografar, mas talvez um dos mais intensos. Joshua tinha amigos na monarquia, mas também tinha na república, que viu implementar. Joshua foi imparcial e mostrou um olhar atento e isento, independentemente das suas convicções políticas que nunca a ninguém confessou.

Outras fotografias destas três fotorreportagens:

Conclusão

Indubitavelmente, podemos afirmar que Benoliel foi o pai do fotojornalismo em Portugal e uma mais-valia para a fotografia no país. Além de implementar novas técnicas de trabalho, foi o pioneiro na adoção de estilos que se formaram culturas, mais tarde. As suas fotos transmitem características típicas de toda a sua obra: o humanismo e a transparência, apanhadas pela imparcialidade e pela isenção.

Joshua acompanhou os momentos mais importantes do século XX, no respeita à história de Portugal e refletiu-os de uma forma permanente. As suas fotorreportagens transmitem o olhar atento de um cidadão comum e um retrato fiel de uma sociedade em diversas circunstâncias. O intimismo e as mensagens passadas marcam a história do fotojornalismo em Portugal.

Bibliografia

– BORGES, José Pedro de Aboim. Joshua Benoliel: Rei dos Fotógrafos. Lisboa, 1984. Tese de Mestrado em História da Arte apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Não publicada.

– TAVARES, Emília (coord.). Joshua Benoliel, 1873-1932: Repórter Fotográfico. Lisboa, Câmara Municipal, 2005. Catálogo de exposição, realizada na Cordoaria Nacional, Lisboa, de 18 de Maio a 21 de Agosto de 2005, no âmbito da LisboaPhoto 2005.

– VIEIRA, Joaquim. Fotobiografias do Século XX: Joshua Benoliel. Mem Martins, Círculo de Leitores, 2009.

Illustração Portugueza e Occidente (ambos visitados em http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/)

José António Pereira

2013/2014

Ciências da Comunicação: Jornalismo

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