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Sem títsuloBiografia – “viver sem rotina”

Joaquim Madruga, conhecido profissionalmente como “Joka Madruga”, e nascido em 1974, é um fotojornalista de origem brasileira. Iniciou a sua carreira apenas aos trinta anos, mas assume que sempre foi “fascinado por imagens”, observando “com carinho” as fotografias dos livros que o seu pai o incentivava a ler ainda criança. Foi repórter fotográfico em assessorias de imprensa, na impressa é colaborador do jornal Brasil de Fato, de circulação nacional, e da agência de fotojornalismo Futura Press, fazendo ainda trabalhos como freelancer.

Uma das marcas registadas da carreira é o ativismo e a defesa de causas em que acredita. Esse ligação umbilical ao (foto)jornalismo de causas, prende-se, na sua essência, ao dever que desde sempre intuiu como sendo parte de uma profissão que escreve o retrato visual de uma sociedade. Nas suas palavras, Madruga diz acreditar “que todas as profissões devem devolver algo de bom para a sociedade, pois é a sociedade, com os impostos, que financia cursos técnicos, faculdades e universidades”. Essa dedicação a um tipo de fotojornalismo marcado por denúncias, defesa das minorias e outras causas sociais, é feito sem custos, pois é a forma que encontrou de “poder contribuir para a construção de um mundo mais justo e igual”. Assim, diz, “o fotojornalismo é uma grande responsabilidade” e assume a importância do seu papel no seio da sociedade, sobretudo na atual, pois “com o mundo virtual a nossa sociedade é hoje é uma sociedade de imagens”; e elas “documentam a história”.

Dessa forma, as fotorreportagens escolhidas – todas publicadas em órgãos de comunicação social -, abarcam o lado mais profissional do fotojornalista e um outro mais comprometido com as causas que afincadamente defende e que o movem, por vezes, por caminhos sinuosos no exercício da profissão.

Fotorreportagens

1.A primeira fotorreportagem foi sobre os benefícios da reforma agrária no Brasil.

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Teve a duração de quatro dias e o seu objetivo primordial era divulgar os produtos dessa mesmo reforma agrária, mostrando, segundo o autor, que “que é possível partilhar a terra”. O fotógrafo optou por realçar o azul, por causa do céu e jogar com a expressão facial da criança, aludindo, dessa forma, a algo bom e positivo, que estaria espelhado naquele sorriso inocente, consequência das políticas que permitiram aos alunos usufruir dos produtos. Outro dos objetivos de Joka, relativamente ao ponto de vista, passou por captar a fábrica de laticínios atrás, mantendo assim uma relação entre a produção (fábrica), consumo (criança) e respetiva felicidade resultante dessa simbiose. Segundo o próprio, “esperei o sol ficar numa boa posição, onde pudesse apanhar a criança e mostrar o laticínio ao fundo”. No entanto, em termos editoriais, a legenda parece destoar da fotografia pois não tem o mínimo de relação com a imagem captada pelo fotojornalista. Ainda assim, essa mantém uma relação lógica com o texto, pois este desenrola-se com base naquilo que a imagem ilustra. A imagem, do rol de fotos apresentadas pelo fotojornalista, foi selecionada exclusivamente pelo editor, tal como nas outras duas fotorreportagens que se seguem.

2. A outra fotorreportagem analisada teve como tema a vitória de Nicolas Maduro nas eleições da Venezuela.

Sem título2Apesar de ser essa o tema principal, pelo menos o noticiado na imprensa, o objetivo de Madruga, ou a encomenda, neste caso, segundo o próprio era “desconstruir as mentiras que os jornais tradicionais falavam da Venezuela como, por exemplo, de que lá faltava comida”. Para tal, decidiu “sair pela cidade de Caracas para fotografar os pontos que eram mais críticos, como alimentos e fraldas”. A sua fotorreportagem teve a duração total de 8 dias e cobriu não só o ato eleitoral, mas retratou, essencialmente, o estado que o país enfrentava no momento. A foto escolhida para ser publicada, entre tantas, mostra Nicolas Maduro de punho em riste, vitorioso após um polémico ato eleitoral. Neste caso, o ponto de vista, ao contrário da fotografia da criança a beber leite, foi apenas o possível, pois Joka, para ter uma vista mais privilegiada do palco, optou por se imiscuir no meio da multidão, numa ação que o próprio descreveu: “na foto do Maduro optei em ficar no meio das pessoas, mesmo tendo a credencial oficial, pois teria uma visão melhor em relação ao lugar reservado para os fotógrafos. Infelizmente estava muito escuro e na época eu tinha levado uma Canon 7D, perdi no ISO e não podia usar uma velocidade alta. No meio do povo eu não tinha muitas opções de levantar o braço para fotografar”. Desta vez, tanto texto como a legenda estão em consonância com a imagem escolhida pela edição da revista onde a matéria foi originalmente publicada. A coleção original de fotos – que transcende o ato eleitoral e a fotografia escolhida pela órgão de comunicação social -, e documenta as ruas de Caracas, pode ser consultada aqui.

3. A 3ª reportagem é a que tem um cariz mais social. O tema era o conflito regional no Paraná, com o inicio das obras de uma central hidroelétrica.

Sem título1Neste caso, o grande objetivo de Joka Madruga era denunciar a construção dessa mesma central, pois irá desalojar 300 famílias, aproximadamente 1000 pessoas, afastando-as das suas próprias terras. O contexto de produção tem particularidades que distingue este trabalho das duas outras fotorreportagens publicadas. Essas tiveram a duração de alguns dias e um planeamento mais minucioso, contrastando com esta que durou cerca de três horas e decorreu apenas numa manhã. Essa especificidade advém, sobretudo, do fotojornalista se encontrar numa propriedade privada e, por isso, a incorrer numa ilegalidade para documentar visualmente aquele acontecimento. Segundo o próprio,  entrou “escondido no canto das obras, pois era proibida a entrada”. Dessa forma deu mais mais primazia ao conteúdo do que à forma, sem nunca descurar esta última.

O material usado foi uma “7D com uma canon 70-200” e, segundo o próprio, na foto do trator (imagem que aparece no decorrer do texto) teve de “dar um recorte pra aproximar um pouco mais”. O motivo foi o facto de se encontrar, como referido, numa zona ilegal, o que lhe terá retirado margem de manobra no que concerne ao ponto de vista e aos reenquadramentos. Ainda assim, com o ponto de vista possível, tentou mostrar a área verde que será alegada brevemente. A imagem, a escolhida pelo editor do órgão de comunicação como principal, no fundo serve como um documento de algo que deixará de existir. Neste caso, tal como no da vitória de Nicolas Maduro, podemos ver que a o fotojornalista enfatizou o que há de informação em detrimento da estética, embora ela esteja sempre presente e seja considerada, pois é o factor complementar de uma fotografia embutida no âmbito do fotojornalismo. Aqui, tendo até em conta as condicionantes, o objetivo principal foi mesmo informar. Contrastando, a título de exemplo, está a criança a beber leite, com uma produção mais artificial e e com outro tipo de preocupações estéticas, pois tal era permitido em termos de tempo e de meio técnicos e temporais.

Ainda em relação à escolha de imagens desta última fotorreportagem, a legenda também não tem grande relação com a foto e o texto foca mais as indemnizações e não a área que irá desaparecer – que foi o principal ponto focado por Madruga nas fotografias que tirou daquele local. Esta última coleção de fotografias, de resto, está nas cogitações do fotojornalista para ser editada em livro, prosseguindo a denúncia por outra via alternativa aos meios de comunicação social: “Sonho em conseguir recursos para publicar um livro sobre o projeto «Águas para a vida», onde retrato a luta das pessoas que são atingidas por hidrelétricas, na Amazônia Brasileira.”

Conclusão

Concluindo, para este fotojornalista o fotojornalismo pode ser uma arma importante, como demonstram fotos aqui apresentadas, na construção do mundo, se for usada com a honestidade que é proclamada pelos seus profissionais. Joka Madruga enveredou, assim, por um caminho afeto a causas sociais, em que as suas fotos expressam, muitas vezes, lados mais recônditos do mundo, onde só chegam audazes objetivas. Para ele, essa missão não poderia ser mais compensadora: “A fotografia proporciona-me viver sem rotina. Por causa da fotografia conheço culturas, povos, países e faço muitas amizades. Num dia posso ir realizar meu projeto fotográfico na Amazônia e 15 dias depois estou num estádio de futebol. Amo minha vida. Amo minha profissão.”

Sandro Santos

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