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“Ter atitude com os assuntos e respeito pelas pessoas”, é assim que Fernando Veludo resume o fotojornalismo. Fernando prefere o digital ao analógico, a cor ao preto e branco, Nikon a Canon, a ausência de flash ao clarão de luz incidente. A sua objetiva favorita é a 80mm f/1.8. Foi um dos fundadores do jornal Público, onde trabalhou 17 anos. Em 2007, criou a nFactos, uma empresa de jornalismo multimédia.
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Fernando é fotojornalista profissional desde 1988. Numa primeira fase, abraçou a fotografia como “autodidata, evoluindo muito pelo empirismo”. Mais tarde, inscreveu-se no Curso Superior de Fotografia, “porque queria fazer qualquer coisa consistente”. Para Veludo não é “crime nenhum chamar fotógrafo a um fotojornalista, porque é o que ele é, como base”. Fernando defende que “a fotografia é basicamente o controlo da exposição e do enquadramento (…), todos temos uma visão e uma preparação geral”, mas que dentro da fotografia “há diversas especialidades” com as respetivas abordagens. O trabalho de fotojornalista abrange todas as áreas, mas não implica o aprofundamento exigido, por exemplo, ao especialista de fotografia de moda ou de fotografia de arquitetura. No entanto, “fazer fotojornalismo não é chegar a um sítio e fazer um clique, principalmente nos dias de hoje em que os fotojornalistas são pessoas bem formadas”, realça Fernando Veludo.

Fotografia no Jornalismo: um produto efémero
Fernando diz que a sua “forma de trabalhar tem, na maior parte dos casos, uma durabilidade muito curta”, mas o fotojornalista não se reduz a tal porque, se é verdade que “há imagens que no dia seguinte estão no mercado a embrulhar peixe ou a limpar vidros na montra” também não se pode esquecer que algumas fotografias “ficam como ícones da História”.
Segundo Veludo, o fotojornalismo deve apostar muito na componente humana: “Trata-se de humanizar os espaços para melhor transmitir a informação através da imagem”. Tomando o exemplo das zonas de conflito, esta componente ganha maior dimensão. O fotojornalista refere o exemplo de Moçambique onde esteve a fazer um trabalho sobre crianças subnutridas. Estas crianças, com dois ou três anos, “pareciam ter uma dúzia de meses”, os seus corpos “eram muito magros e o olhar não tinha emoção”, afirma. “O que acontece é que [nestes momentos], concentro-me na composição e a composição para mim contém linhas e círculos: se a cabeça é um círculo e os braços são linhas, onde é que fica a composição final?” Mas assim que se põe de lado o filtro da câmara, “revejo [as fotografias] no computador e reajo como um ser humano normal”. “Os fotojornalistas são sempre afetados pelo que vêem ou pelo que lhes acontece”, acentua Fernando Veludo.
A par disso, também existe a subjetividade expressa no plano aberto ou plano fechado. Por exemplo, “numa manifestação de 20 pessoas, se eu abrir o plano tenho uma ideia muito distante, mas se fechar o plano num manifestante que, naquele momento, está com um ar de pesar ou mesmo a chorar, acabo por ter uma foto muito representativa”. E é precisamente aqui que reside a subjetividade, porque, consoante as abordagens, a carga emocional das imagens varia de umas para outras e a informação a ela associada também.
Com quase 25 anos de carreira, Veludo explica que a câmara fotográfica faz parte de si. “Eu sempre tive medo de perder aquilo a que chamamos de A Fotografia. A Fotografia resume a informação.” Para que tal não aconteça, o fotojornalista confessa: “a câmara é uma extensão do meu corpo”.
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Ainda assim, prefere ter sempre o restante equipamento perto de si. Explica: “Imagina que alguém que ameaça lançar-se de cima da Torre dos Clérigos. Com esta objectiva [14-24mm f/2.8] não faço rigorosamente nada, zero! Eu poderia estar na hora certa, no lugar certo, mas estava com a objectiva errada. Por isso é que gosto de ter o equipamento no carro, porque sei que esta é errada, mas muito próximo de mim tenho o equipamento correto para fazer uma fotografia que consiga bons resultados.”
Em jeito de balanço, Fernando Veludo diz que uma das grandes vantagens do seu trabalho é que “furta um pouco da vida às pessoas que vai retratando.” Veludo lembra que os fotojornalistas têm “uma relação muito próxima com os acontecimentos. Como dizia Robert Kappa, se a tua fotografia não está boa é porque não estás suficientemente perto.”

As novas tecnologias
Ainda que considere que o trabalho fotojornalístico seja importante, o profissional considera que dentro do meio jornalístico estão a ocorrer mudanças. “Cada vez mais os fotojornalistas vão tornar-se em ideógrafos,
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Limitações editoriais
porque as câmaras já começam a ter formas de gravar vídeo com muita qualidade. Depois a própria sociedade, os próprios suportes que têm, são completamente diferentes dos que tinham há quinze/vinte anos.” Fernando prefê que a próxima fase seja “cada vez mais ser na área do vídeo” e que a fotografia perca “cada vez mais importância.”.
Contudo, o fotojornalista encara esta acessibilidade ao material de fotografia como um estímulo no seu trabalho. “Como dizia um professor meu, um fotógrafo não se vê pelo que tem entre as mãos, mas pelo que tem entre as orelhas.”
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Quanto à tendência para a utilização de ferramentas de edição fotográfica, Fernando diz limitar o uso de Photoshop para corrigir contrastes como fazia em laboratório “há mais de 20 anos”, até porque se concretizar mais do que isso “adultera a realidade”. “Tal como o texto, a imagem tem de ter a sua leitura. Ao adulterar estou a impor uma subjetividade que não deve entrar de uma forma exagerada. No caso concreto do fotojornalismo, tentamos retratar a notícia que estamos a cobrir da forma mais clean possível”.
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Fernando Veludo explica que, atualmente, o fotojornalista está muito dependente de um órgão de informação, que por sua vez está muito dependente de certos grupos económicos. “O jornalismo independente, como se idealizou há muitos anos, cada está menos independente. Daí que há uma certa obrigatoriedade, por vezes, de se fazer uma determinada abordagem noticiosa.”. Segundo Fernando, notam-se cada vez mais as limitações impostas pelos editores. Fernando Veludo explicou as três fases do fotojornalismo ocorridas em Portugal. “Houve uma etapa em que o fotojornalista não pensava, só carregava no botão da câmara.”.
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A segunda fase mudou o paradigma da época: “(…) Dois jornais que tiveram muita importância na mudança do fotojornalismo em Portugal, o Independente e o Público, e também um pouco o Expresso. Mas a grande mudança dá-se com o Público.” Este foi um período de cerca de 10/12 anos, em que o fotojornalista era muito respeitado e era um ator bem formado na área do jornalismo. Dentro das redações o fotojornalista era respeitado.”
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A fase atual do fotojornalismo caracteriza-se pela diminuição drástica da autoridade do fotojornalista, em redação. “Na fase intermédia, era a tua melhor fotografia que era publicada. Hoje em dia já não é a melhor fotografia, mas sim a fotografia que encaixar melhor com o desenho de página previamente estabelecido”
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