Home

Adriano Miranda: “Isso é que é o divertido do trabalho. Não é uma coisa igual todos os dias”.

Adriano Miranda é um fotojornalista premiado, que ganhou fama pelo seu trabalho no Público. Com 20 anos de experiência, o fotojornalista falou-nos sobre o dia-a-dia da profissão. Na opinião do profissional o mais importante não é o material, mas sim quem está atrás da câmera. Nunca apagar nada e estar sempre atento ao que se passa são duas das regras de ouro do fotógrafo.

DSC_0006

Hoje está responsável pela edição?

Eu tive quatro anos como editor em Lisboa. Chateei-me de Lisboa, vim para o Porto. Mas uma das condições que eu tinha para vir para o Porto era que queria deixar de ser editor. Mas de vez em quando dou apoio ao meu colega. É rotativo. Temos dois editores, em Lisboa e no Porto, mas outros também editam porque os chefes também têm que folgar e descansar.

Prefere fotografar?

Sim, fotografar.

Custa-lhe muito o trabalho de edição?

Custa. Por isso é que aguentei 4 anos e decidi acabar porque já estava pelos… Fiquei careca. [Risos].

Como fotojornalista, tem alguma rotina? Isto é, como é que é o seu dia típico?

O dia típico começa sempre lá para as nove da noite. É quando sabemos o que vamos fazer no dia a seguir. Isso é que é o divertido do trabalho. Não é uma coisa igual todos os dias, não é rotineiro. Não sabemos o que é que nos vai calhar na rifa. É um trabalho, dois trabalhos, três trabalhos. É o Passos Coelho, é o buraco na rua, é a queda de uma árvore, é uma entrevista. É o que há para fazer. E geralmente, quem edita é que comunica aos colegas que estão durante o dia a trabalhar. Depois de fazermos o trabalho vimos para o jornal, para tratar e editar as nossas imagens. Escolhe-las para o editor depois paginar. Também podemos fazer isso de casa. Muitas vezes podemos não vir cá ou podemos estar fora. Levamos o portátil e enviamos. A semana passada tive que ir para Coimbra que houve lá uma derrocada, e eu não levei o portátil. A primeira coisa que eu fiz foi pegar no iPhone, fiz duas ou três fotografias e mandei para o online. Foras as fotografias que eles publicaram. Depois cheguei, e as fotografias da máquina estavam melhores, tinham mais qualidade, e foram substituídas. 

E o trabalho de edição envolve o quê?

O trabalho de edição depende de órgão para órgão. Como nunca trabalhei em mais nenhum, só trabalhei neste, não sei bem como fazem os outros. De manhã há uma reunião com os editores e com os directores. Analisam o jornal que saiu nesse dia e cada secção faz as propostas que tem para o dia, e a fotografia está presente. Às vezes de manhã já é discutida a fotografia da primeira página. Alguma hipóteses. Porque ao longo do dia… as notícias não têm hora e podem surgir outros assuntos mais importantes. Depois o trabalho do editor de fotografia é estar num computador em que está a editar. Ou seja, está a escolher imagens para o online e para o papel. As secções vão pedindo as fotografias. Ainda à bocado estava a falar com o editor de Lisboa. Ele entrou de manhã e vai embora agora, nós entramos à tarde e ficamos aqui até às onze da noite. E eu estava a perguntar… Está tudo em suspanse com o Ronaldo. Ele estava a dizer é capa, é destaque, é última página, é quase tudo. Nós temos que saber isso. Temos que estar informados. Isso é um aspecto muito importante. Quem está a editar tem que estar informado. Eu hoje de manhã levantei-me, fiquei em casa mas liguei a SIC Notícias. É um hábito que me ficou de quando era editor, para saber sempre o que é que se está a passar.

Então tem em stand-by as fotos do Ronaldo e do Messi para entrar assim que souber quem ganhou?

Claro, claro. Quando for anunciado, um ou outro. Ainda há um outro, Ribery. Nem sei bem o nome. Quem ganhar entra. Depois o editor também gere a agenda. Ou seja, é ele que distribui os serviços pelas pessoas que estão a trabalhar. O cheirinho de photoshop ou o tratamento de imagem é dado pelos fotógrafos. Quando chegam, trabalham as suas fotografias, e até escolhem. É um hábito nosso, eles é que escolhem as imagens, são eles que as tratam. A partir daí é que são publicadas, ou não. O editor selecciona. Desde a primeira página à última, e no online.

Está subjugado à vontade dos outros editores?

É um compromisso. Não é por acaso que o Público é uma das referências em termos do fotojornalismo. O Público, o Expresso e o Independente. O Público nasceu e foi uma pedrada no charco do panorama do que se fazia até então no fotojornalismo. E aqui nunca houve essa cultura de ser o redactor ou editor ou mesmo o gráfico a escolher as imagens. Passa sempre pela editoria de fotografia. E é um diálogo. Não quer dizer que o redactor não diga “se calhar gostava mais se fosse assim”. É um diálogo. Não há facas.

Quais são os trabalhos que mais gosta de fazer?

Política. E quanto menos gosto deles mais gosto de os fotografar! Os que mais gosto geralmente não sai bem.

Porquê?

Porque é um assusto que eu gosto. Desde criança sempre gostei de política. Eu vivi muito o 25 de Abril. E sempre me interessou a política. Não me tornei político porque não tinha capacidade para isso. O partido onde eu estava era daqueles pequenininhos, não chegava lá. Não escolhi um partido do arco do poder… Senão agora era ministro. [Risos]. Fui para fotografia, calhou. Estou a ironizar um bocado, mas é o que mais gosto. Se me perguntares, o que é que gostas menos de fazer? É futebol. Não gosto nada.

Lembra-se de algum serviço em particular que lhe tenha dado mais prazer a fazer?

Já houve muitos. Fiz recentemente um trabalho que gostei de fazer apesar de… Visualmente era muito forte. Foi um trabalho que saiu na semana passada, “Os Cuidadores”. Era visualmente muito forte porque eram pessoas com demência, estão acamadas, estão numa fase terminal da vida. E havia certas regras, como reservar a identidade das pessoas e isso. Não é um trabalho que me dê gozo fazer, para mim o gozo era não fazer porque era sinal que aquilo não existia. 

Essa reportagem é realmente muito forte. Como é que lida com essas situações impressionantes?

É complicado. Eu pessoalmente sou um grande medricas. Quando vou fazer análises ao sangue peço sempre à enfermeira para me deitar e nem posso sequer ver o garrote a apertar.. Mas já tive em situações complicadas. De ter mortos à minha frente. Cenas complicadíssimas. E sentir o peso da responsabilidade de ter que fotografar… Não se pode virar as costas, não posso chegar aqui e dizer que havia sangue e não me apeteceu fotografar. O medo vai-se. É curioso mas é verdade. E já vivi situações de perigo em que não reparei que estava a viver esse perigo porque o medo desaparece. Muitas vezes até me torno um bocado inconsciente. Mas ainda bem que é assim.

Já trabalhou algumas vezes com a jornalista Ana Cristina Pereira, e ela gosta de cobrir estas situações socialmente complicadas.

É. E eu também. Não é que tenha prazer em que elas existam mas acho que é extremamente importante falar delas e denunciá-las.

DSC_0003

E qual foi a pior experiência que teve enquanto fotojornalista?

A mais traumatizante é caricata. Já foi à uns quinze anos. Houve um senhor… O senhor Subtil foi à RTP, em Lisboa, e entrou lá com uma bomba. Fechou-se numa casa de banho e ameaçou que ia explodir aquilo tudo. Foi para lá um batalhão de fotógrafos e televisões. E, assim espontaneamente, o povo começou a juntar-se em apoio ao Subtil. E depois, não sabíamos se ele saía, se ele explodia, se saía com a PJ ou com a PSP, se saía pela frente ou por trás. Não se sabia nada. Eu estive lá quase 8 horas. Sempre no mesmo sítio. Apostei na porta principal. Não comi, não fui à casa de banho. Sempre ali. E depois chegou o momento em que o Subtil realmente saiu. E no meio de dezenas fotógrafos que lá estavam, só houve um fotógrafo – que infelizmente já morreu, o Luis D’Orey da Reuters – que conseguiu apanhar o Subtil. Todos os outros… Ninguém conseguiu. Aquilo foi capa de todos os jornais e foi sempre com a foto do Luis D’Orey. E eu não consegui, só consegui fotografar as filhas. Esse foi o meu dia mais dramático nesta casa porque eu cheguei à redacção e tive que dizer que não tinha conseguido. E no outro dia constatou-se que não fui só eu o nabo. É frustrante, mas são coisas que acontecem. 

Estando no local a fotografar, tem preocupações estéticas, editoriais…? Ou só está preocupado em captar a informação?

Isso sempre foi a regra de ouro desta casa. É isso que faz a diferença em relação aos outros jornais. Nós não fazemos a fotografia pura e dura. Não fazemos o raio-x, chapa cinco. No fotojornalismo quanto mais informação a fotografia tiver melhor, mas não é necessário estar lá a informação toda. E o bom fotojornalismo, o bom fotojornalista é precisamente aquele que consegue conciliar numa imagem a parte informativa mas também uma grande carga estética. E foi sempre essa cultura que se passou aqui no Público. E se virmos a história de todos os fotógrafos que por cá passaram… Nenhum tinha formação em fotojornalismo, tinham todos formação em fotografia. Eu uma vez fui fazer a chegada de refugiados da guerra do Kosovo. Fotografei e depois, com o director da altura – o Adelino Gomes – nós estávamos a escolher as imagens e ele estava muito aborrecido com as fotografias porque não se percebia que era Portugal. Lá está, era um acrescento que para a fotografia não tinha valor.  Para já Figo Maduro é um aeroporto militar, um aeroporto banal. E toda a gente sabia que era em Portugal, e o redactor ia escrevê-lo. Então, o Miguel Madeira, em tom de brincadeira, disse “então a partir de hoje vamos por em todas as fotografias no canto inferior direito um galo de Barcelos”. Foi uma boa resposta e ele calou-se. Não tem sentido nenhum, essas fotografias chapa cinco. Nós vamos fazer uma conferência de imprensa e o que é que aparece? Aparece uma mesa, pessoas sentadas, um bouquet de flores, as garrafinhas de água do Luso ou derivados… Nós não fazemos nada disso. Fotografamos sempre antes de eles chegarem ou depois de eles saírem porque é quando eles estão mais descontraídos.

Mas isso depende do serviço… Essa liberdade que têm numa conferência de imprensa não vão com certeza ter quando saem para uma ameaça de bomba!

Claro que não, até os cuidados são outros. Mas geralmente a conferência de imprensa é muito mais difícil de fotografar do que a ameaça de bomba porque te obriga a ti a chegares aqui com alguma coisa diferente, que não seja o banal. E eu e os meus colegas já fizermos centenas ou milhares de conferências de imprensa. Mas temos de ter a capacidade de tornar aquilo numa fotografia enriquecedora, esteticamente válida, que as pessoas olhem e gostem. É muito difícil.

Não se preocupa se a sua presença pode alterar a situação ou a reacção das pessoas?

Pois, às vezes altera. Quer dizer se eu for para a frente do Primeiro-Ministro, se calhar não altera nada porque ele está habituada a ter os jornalistas à volta dele. Mas há situações que… Imagina se fores a um bairro social, a pessoa está a comer tremoços. Mas a gente chega lá e eles vêm uma máquina fotográfica – às tantas pensam que nós somos da televisão – e se calhar deixam de comer os tremoços, ou de pôr as cascas no chão. Claro, altera. Mas isso é inevitável. 

Acha que é mais complicado ser mais imparcial na fotografia?

Eu acho que sim. Já senti que muitas das fotografias que faço, e que muitas vezes são publicadas, não reflectem a 100% o que lá se passou. A fotografia e televisão nesse aspecto são uma armadilha. Se calhar, neste tempo em que estiveste aqui, fartaste-te de rir, e eu apanhei-te num momento em que estás com a cabeça baixa, e quem vê essa foto pensa, “está tão triste”. Eu costumo dizer que é preciso saber bem ver televisão, pois nem tudo o que dizem nós temos de comer. Há muitos erros de edição nas televisões portuguesas. Ás vezes há [notícias] como «portugueses estão cada vez mais endividados». Depois dão uma imagem de Santa Catarina e há pessoas lá que não estão endividadas. Tem de ser ter algum cuidado com isso. Às vezes nem se trata de mau profissionalismo. Mas isto é feito todos os dias. E nas televisões agora é terrível, com os canais de notícias, os directos… Aquilo é um stress. E os jornais diários começam a entrar no mesmo stress porque têm o online para alimentar. Às vezes estamos exaustos e não dá para pensar muito.

Mas hoje em dia há público que não quer tanto o imediatismo como quer a qualidade…

Pois, há de tudo. Há leitores do Público e leitores do Correio da Manhã. Há pessoas que se o pai matou a filha e abrem o jornal e não a vêem com a faca no peito, ficam tristes. O Público não põe fotografias nem da filha nem do pai. Já o Correio da Manhã põe logo a fotografia do BI. Então quando se trata de crianças, nem se pensa nisso.

O fotojornalismo muitas vezes entra na esfera íntima da pessoa, nomeadamente quando se lida com problemas sociais. Como é que se ganha a confiança das pessoas?

Para já é assim, eu sou contra aqueles fotógrafos que andam vestidos à Pai Natal. Andam com um colete a dizer Canon, andam com um 70-200, mais uma pendurada ao peito e mais outra no lado direito ou no lado esquerdo e depois andam com uma laica a fazer de colar, portanto… Nós temos de ser o mais discretos possível. Até porque não há profissionais e amadores. Há fotógrafos, bons e maus e ponto final. E depois há muita gente arrogante. Não é por terem carteira profissional que podem chegar ali e passar por cima de toda a folha. E muitas vezes é chegar, cumprimentar as pessoas e falar antes de começar a apontar a câmara. E perceber qual é a receptividade das pessoas. Se a pessoa não quiser, não se pode obrigar ninguém, nem ir para trás de uma moita com uma teleobjectiva fazer trabalho de paparazzi. 

Mas para criar a confiança é preciso tempo. E quando falamos de um jornal diário, a exigência do imediatismo, é complicado…

Isso é uma das grandes vantagens dos fotojornalistas dos jornais diários porque trabalham ao segundo. Eu mesmo que esteja a fazer um trabalho que possa demorar um ano, às vezes dou por mim em stress porque penso que já é para daqui a bocado. Então agora com o online ainda mais depressa tem de ser. Antigamente tinha de se revelar o filme, imprimir a fotografia no laboratório… Hoje em dia não. Não há desculpas, o fotojornalista trabalha ao milésimo de segundo, ou faz ou falha.

Dizem-nos, principalmente em televisão, que a melhor reportagem é que vai para o ar, a que está pronta. Pode não ser a melhor em termos técnicos, mas é a que está pronta.

Pois, claro. E muitas vezes acontece-nos isso. Muitas vezes a melhor fotografia não é que foi publicada. Porque às vezes é escolhida a quente, às vezes não é bem interpretada por quem está a editar. E quantas vezes é que uma fotografia a que nós não ligamos nada, passado um dia ou dois ou um ano ou três é uma grande fotografia. Eu vou-vos dar um exemplo. Eu tenho uma fotografia do Armando Vara, da Face Oculta. Houve um dia, um dia muito importante, em que o Armando Vara foi ouvido… Aquilo prolongou-se, e quando ele saiu já era de noite. Eu não uso flash, mas  não estava nada preocupado porque sabia que as câmaras de televisão têm aqueles leds e eu tiro sempre partido daquilo. E no digital nós costumamos a apanhar os flashes parasitas, quando há um colega que dispara [com flash] e um fotograma nosso fica com imensa luz. E o que é que acontece? Eu fui para casa editar para enviar e tenho uma fotografia de Armando Vara que está de braços abertos em que o rosto dele está completamente branco. Estoirou. Não foi erro técnico meu, mas foi o dito flash parasita de um colega que estava ao lado. E não saiu. E passado uns tempos essa fotografia foi considerada das melhores fotografias do ano do Público e foi capa do jornal e capa do P2. Porquê? Porque analisando aquela fotografia a frio, aquela fotografia com um erro técnico é fantástica porque é a «Face Oculta» do Armando Vara. Na altura ninguém fez ligação. E não há mal nenhum no fotojornalismo a fotografia não seguir o caminho que tu pensas. E isso é a tal aliança entre a informação e a estética.

E a parte técnica, quão importante é? É o equipamento que faz o fotojornalista ou o fotojornalista que faz o equipamento?

O fotojornalista faz o equipamento. Desgraçado daquele que é escravo do equipamento. Eu sou a pessoa menos indicada para falar nisso porque sou muito nabo tecnicamente. Há mais de metade dos botões na minha máquina que eu não ligo, não quero saber daquilo para nada. Se me fizessem um grande desconto até escusavam de lá estar porque eu não os uso! Tenho a minha maneira de trabalhar e sou eu que domino a máquina e não é a máquina que me domina a mim. E não venham com coisas que é preciso ter uma boa máquina para fazer excelentes fotografias. Se for preciso faço excelentes fotografias com uma Pin-hole.

Nós estamos no último ano do curso e o que nos dizem é que o jornalista de hoje tem de saber escrever, filmar, fotografar… Acha que é positivo ou negativo não haver profissionais especializados?

Eu acho que isso já caiu em desuso. Houve aí uma fase que era o jornalista hi-tec. Isto não tem nada de saber. É dinheiro, é capital. Em vez de ter um redator ali sentado, um fotógrafo aqui e pagar 700 euros, arranjo um gajo que faça tudo e pago 350 euros. Não tem nada que saber. Começou a surgir o gajo que fazia tudo, escrevia, filmava e muitas vezes até a fotografia era um frame de vídeo. A Lusa começou quase a fazer isso. Aquilo durou 15 dias porque eles não faziam bem nem uma coisa, nem outra. Começou-se até a pensar que os fotógrafos iam ser irradiados das redacções. Mas o que eu noto é que os fotógrafos continuam a trabalhar. Só houve aí uma pequena alteração tanto para o fotógrafo como para o redactor, que é a questão do vídeo. Cada vez mais temos fotógrafos e redactores a fazer vídeo. Agora não quer dizer que não haja partilha de aprendizagem, porque é sempre bom aprender. Mas, como eu costumo dizer, cada macaco no seu galho. E geralmente essa coisa de um fazer tudo, não resulta bem porque há perda de qualidade.

Não acha o digital banalizou a fotografia? Quando éramos pequenos, se me tirassem 100 fotografias tinha-as todas num álbum, agora tiro 2000 e não tenho nenhuma…

Sim, tens razão. O meu filho mais velho tem muitas fotografias, o mais novo não tem fotografias nenhumas porque já nasceu na era digital. E agora fotografa-se muito mais do que se fotografava. O cartão formata-se e dá para milhares e milhares de imagens. E depois há uma coisa terrível que as máquinas não deviam ter, que é o botãozinho do «delete». Aqui no jornal ninguém apaga fotografias. É tudo arquivado. As desfocadas, as tremidas, as arrastadas, as mal enquadradas… Imaginem, quando foi o Robert Kappa fotografar o desembarque na Normandia… Não sei se sabem da história: ele entregou os rolos a um assistente e o assistente sem querer queimou os filmes todos e só sobraram uns 5 fotogramas, que é o que se conhece hoje em dia, tudo muito arrastado.  [Se ele tivesse dito] “isso está tudo arrastado, deita mas é isso ao lixo”, nós não tínhamos aquele testemunho. E nada nos garante que o que é uma má imagem hoje, não se torna uma boa imagem daqui a uns anos, porque foi vista por outra pessoa, com outro olhar, o contexto mudou, a história mudou… Vou-vos dar outro exemplo, a morte do Savimbi, ou mais recentemente a morte do Sandam. As fotografias que apareceram na Reuters eram fotografias de telemóvel. [No caso do Savimbi] a fotografia não tinha grande qualidade, mas foi primeira página do jornal porque a informação era tão forte que sobrepôs à estética. São testemunhos. Como o atentado no metro de Londres. As imagens eram tiradas pelas pessoas. É o chamado repórter cidadão. Não tem grande qualidade, mas são um testemunho tão grande que ultrapassam qualquer barreira.

Acha que os repórteres-cidadão hoje em dia são importantes?

Sim, e são incentivados. Se repararem, num temporal, a SIC, a RTP ou o Público, pedem que se envie as fotos. Muitas vezes temos informação de um tufão, de um furacão, ou de uma onda, porque estavam lá pessoas no local. E isso é uma mais valia em relação aos anos que estão para trás. Antigamente, quando acontecia, se não estava lá um repórter ninguém via, ninguém sabia. 

Era mais feliz, enquanto fotojornalista, na era do analógico?

Hoje sou muito mais descontraído. Por dois motivos. Para já, os anos de profissão, pois vamos aprendendo e ficando mais descontraídos. E depois não há dúvida que para nós, fotógrafos, o digital é outro descanso. Vocês nem imaginam como era. Eu fui para Timor em 2000 e nós tínhamos um laboratório que era uma mala de metal que pesava trinta quilos. Na altura já levava um portátil e um scanner, portanto só tinha que revelar a película. Era um stress só para enviar, porque a internet não era como é hoje. Haviam umas linhas telefónicas malucas, os telefones satélite. Era uma confusão, caríssimo, e muitas vezes víamo-nos aflitos para enviar. Era um stress brutal, estávamos deslocados e não conseguíamos pôr o material na redação. Hoje em dia nem pensamos nisso. Tem tudo vantagens e desvantagens. Mas feliz, feliz mesmo era se deixasse de fotografar…

Porquê?

Porque estou cansado. Estou aqui há 20 anos e estou cansado, apetecia-me fazer outra coisa, aprender a fazer outra coisa. Chega a um ponto em que já não se aprende nada, ou pouco se aprende.

Já fez tudo o que tinha para fazer?

O que vou fazendo agora são os projectos. O «12. 12. 12.», que deu um livro sobre a crise. Agora estou a trabalhar no «Projecto Troika». Vai ser uma coisa bastante dura, que vai agora ser lançada. Vai sair na Visão e no Público. E estamos a angariar 10 mil euros em crowdfunding, para pôr um livro e um filme cá fora em Outubro. Isso é que nos dá alento. Somos oito fotógrafos e um realizador de cinema. É malta que se une e que está farta de estar aqui e nos outros órgãos. Estamos cansados, é sempre a mesma coisa. Fazer trabalho documental… É mais lúdico, obriga a pensar, há muita discussão do trabalho. No «12» éramos doze e agora somos nove. Temos reuniões regulares, há muita discussão de trabalho, fala-se muito de fotografia. Aqui já é mais “página doze, três colunas”, e tem de sair. É assim. Não há espaço para muitas discussões. 

Ana Rita Pessoa | Sara Gerivaz | Sandro Santos
3º ano | Ciências da Comunicação: Jornalismo, Assessoria, Multimédia
Faculdade de Letras da Universidade do Porto

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s